Mostrando postagens com marcador Confissão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Confissão. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Medos e bocejos

2 horas da manhã. Nos meus dedos, o frio teclado digital do tablet - frio porque não sinto a profundidade do teclado do computador, sinto apenas uma tela que ficará manchada pelas minhas digitais. Já bocejei, já despertei, já bocejei de novo e dou meu mindinho do pé para não despertar mais uma vez. De repente, dei pra pensar nos meus medos, tão exaustivos e superficiais - como eu.
Tenho medo de ver o dia amanhecer. Não que eu não goste do sol, pelo contrário. Não gosto é de perceber que encarei dois ou mais dias seguidos sem sonhar durante a noite. Uma sensação de que atravessei o tempo. Ou seja, um medo poético - pura frescura.
Não, não tenho medo de avião. É só não tocar mamonas dentro do bicho que eu fico bem. Simples assim.
Meu maior medo no momento? De elevador. Não gosto de caixas - nem que sejam de sapato. Não que eu seja claustrofóbica, mas a possibilidade de ficar presa em um lugar escuro entre um andar e outro não é nem um pouco legal. Mas preciso superá-lo, afinal não quero ser uma adulta problemática. Com os pensamentos ligados no modo madrugada, imagino que, a qualquer momento e em qualquer lugar, posso ficar presa e no escuro - não só em elevadores. Aliás, eles não tem culpa de nada, são bichos tão inteligentes quanto aviões ou computadores - a maluca sou eu. Pronto, o medo virou solidariedade.
Tenho medo de insetos. Qualquer animal que voe me preocupa - até mesmo pilotos imbecis. Digo isso porque sei que eu pudesse voar, faria merda. Imagine um animal mil vezes menor que eu? Bom, ainda bem que Deus não deu asas à cobra. Melhor assim.
Tenho medo de brigas. Qualquer briga. Morro de medo de quem desliga o motor da consciência e joga merda no ventilador. De quem não sabe usar a matemática do bom senso e não mede suas palavras. Seres humanos nervosos são piores que bombas nucleares.
Tenho medo de outras coisas que o sono não me permite lembrae. Mas medos são tão ridículos... assim como a vida, cartas de amor e redes sociais. Ruim com eles, pior sem eles. Será?
Não despertei. Acho que vou arrancar meu mindinho e oferecê-lo a Morfeu.
(Ouçam summer breaze, jason mraz)

domingo, 21 de outubro de 2012

Primeira pessoa



Resolvi levar meus olhos para passear na calçada mais próxima, e a preguiça era tanta que escolhi o primeiro endereço que a web me ofereceu: este blog. De palavra em palavra, fui aquecendo a cabeça, a alma e a miopia. E percebi algo muito chato (que se repete nesse post): a mania de falar em primeira pessoa. Logo eu, que clamo tanto pelo “coletivo”, pelo sentimento universal, ou seja, por uma teoria ridícula de que preciso falar sobre todos, não sobre mim.
Mas queridos... Isso é impossível. É impossível falar de todos sem se colocar no meio, sem se exemplificar. É impossível citar sentimentos, pensamentos ou qualquer outra substância sem citar experiências próprias – mesmo que sejam fracas demais para serem consideradas “experiências”. Admiro muito o “socialismo” de um blog que escreve em terceira pessoa, sempre deixando suas próprias emoções de lado – mas como devo ter dito em algum lugar por aqui, esse papo socialista só é bonito no papel (e ainda assim é insuportável). Durante muito tempo, evitei falar de mim nesse portal, pois é chato demais falar de si mesmo o tempo todo. Mas percebi que evitar a chatice é atrai-la ainda mais.
Sou a primeira pessoa. Eu, Nathalie Gonçalves, chata, imprudente, que borra a maquiagem da Avon, que não suporta Indie, que não acredita em chiliques, que mesmo apaixonada pelo Hugh Grant não aguenta mais comédias românticas, que ouve Accid Jazz e acha que isso é estilo, que fala coisas tão bobas que chegam a ser indefiníveis, que quer desenhar uma mandala enorme dentro de uma roda composta por repetições da expressão “cosmic girl” nas costas, que é tão chata que para por aqui. Eu sou minha única referência – aos trancos e barrancos, eu faço a minha própria física. E de uma certa forma, quando falo de mim, falo de todos. Não que todos nós sejamos iguais... Cada um faz, fala, sente e pensa de um jeito, ora. O que quero dizer é quando falo de mim, quero que todos se sintam em segunda (e não me menos importante) pessoa ao me lerem ou me ouvirem, se houver uma voz automática em suas mentes que converta minhas palavras tão friamente digitadas em sons – ou vai que tem gente que bota tudo no Google Tradutor e fica ouvindo a voz linda daquela moça fazendo a locutora? 
Gosto de criar conexões. Gosto que minhas palavras inspirem as palavras de outras pessoas... Longe de mim fazer a linha auto ajuda, detesto dar conselhos e vender filosofias inconclusivas. O que quero é inspirar, é arrancar um sorriso que se reflita na tela do computador, é fecundar uma opinião em quem me lê – e se pra isso eu tiver que usar e abusar do pronome “eu”, ok, é um preço a se pagar.
Falar de mim é fácil... É só você sentar do meu lado e perguntar como eu sou, o que faço, o que penso, bla bla blá. Mas não sei dizer se ser eu é difícil – até porque não me lembro de ter sido outra pessoa, então não posso fazer uma comparação digna. Agora uma coisa eu posso garantir: falar em primeira pessoa, por mais colegial ou ridículo que pareça, é revigorante. Recomendo.
Perdoem-me se massacro vocês com tutoriais sobre ser alguém que ninguém é capaz de ser. Só quero inspirar vocês a criarem seus próprios tutoriais. Só quero ajuda-los numa descodificação que estou longe de alcançar, mas que, assim como vocês, tento obter. E saber que alguém me lê – seja aqui no Brasil, nos Estados Unidos, na Rússia ou na Alemanha, seja num escritório com o ar condicionado no máximo ou num quarto revirado – é muito bom.
E chega, porque já estou indo para a segunda página no Word – e não suporto massacrar vocês com palavras demais. 
(Tumblr)

(Ouça Song for a friend, Jason Mraz)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um lugar chamado Vazio


(Denis Grzetic)
A ideia era falar sobre “jacheguismos”, mas achei melhor deixar para uma próxima vez – quem sabe daqui a um mês.
É que é madrugada. E a madrugada é ótima. Parece que o cérebro sabe qual é a melhor hora para sair da caixinha.
De repente, bateu um vazio. Ah, acho que bate em todo mundo – quem nunca se sentiu no meio do nada, sem vontade, sem ânimo ou inspiração, ora, que atire a primeira pedra.
Eu sei que não é legal brincar com esse ditado. Porque sempre tem alguém a fim de te mandar para o hospital.
Acho que o vazio que sinto é normal e anormal ao mesmo tempo. Não que o mundo tenha algo a ver com isso, mas com o passar do tempo, esse blog se tornou o meu divã. Se você não tem o seu ainda, corra pro Blogger e escolha um nome único, criativo e que não tenha nada de fofinho.
O que é se sentir vazio? É como ver um show numa TV muda. Você vê as legendas, vê o cara mexendo os lábios, mas não faz a menor ideia de como a melodia tá saindo. É como forçar um choro sofrido, fazendo dos olhos uma vaca capaz de oferecer leite fresco e incomparável – você não é uma vaca; lágrimas são mais temperamentais do que uma vaca. E eu sei que vou te fazer chorar (de vergonha alheia) com essa comparação.
O vazio que sinto é... Estranho. Como qualquer vazio que a gente sente. A gente? Quem faz “a gente”? O cara que canta no mudo da TV? A vaca da minha comparação? As lágrimas que não saem?
Você pode dizer que estou carente – a gente está carente, assim me sinto menos idiota. Mas isso não faz sentido. Quem precisa de alguém pra esse tipo de serviço não está vazio... Só está matando cachorro a grito. Não, falo de um buraco mais embaixo – um buraco em que tropeço, caio e, estupidamente, abro um berreiro.
O vazio é um lugar, eu já cheguei a essa conclusão. Um lugar onde as novelas são mais interessantes que a sua vida, onde há a necessidade de se mostrar para quem nada quer ver, onde sonhos, de tão fortes, intensos e desejados, tornam-se fracos e insignificantes – você não é a mocinha da novela que consegue tudo no fim, porque o seu fim pode ser tão mísero como qualquer outro. Os sonhos se perdem. Você não sabe mais como sonhar, como imaginar, como ousar – e acaba sem forças, mais um estranho entre bilhões enquanto podia ser mil dentro de um que brilha para uns vinte, pelo menos. Ou para si mesmo. Porque brilhar, nem que seja para o espelho, é uma dádiva. Uma dádiva que só quem já se sentiu vazio consegue dar valor.
Então você sai feio numa foto. É desprezado numa conversa. Espera por alguém que foi e não voltou – e que não voltará tão cedo. Vira chacota dos medos de criança. Não deixa as unhas crescerem em paz. Não gosta mais de sair. Não sabe mais o que quer. Não sabe se vai querer algo. Não quer nada. Só quer fugir.
Um banho de sal grosso? Já pensei nisso. Mas... Bom, eu me sentiria uma picanha.
É pior do que chorar. Porque quando a gente chora, ora, é do nada, borra o creme, a maquiagem, a construção, mas passa... Pelo menos lava as calçadas, tira as impurezas, dá ânimo pra encontrar as respostas. Mas se sentir vazio não tem essa vantagem. Você sorri, e por dentro, o mundo cai e a Maísa desencarna.
É estranho pensar que o vazio faz a gente se sentir estranho pra si mesmo.
Mas aí, num desses cansaços que desliga os radares, você se deixa levar. Descobre o medo, o verdadeiro medo, o melhor e o pior de todos, aquele que move, que tece o caminho para uma ressurreição fajuta, mas necessária. O medo de se perder é terrível – mas é ele quem mata todos os outros medos. Mesmo que os prédios desabem, que os lustres caiam sobre as mesas, que as novelas acabem com as mortes dos mocinhos e mesmo que a chuva interrompa o sinal da TV, tudo bem – você ainda pode dar seu depoimento no “Fantástico” e dizer que nasceu de novo; pode comprar novos lustres, mais luxuosos que os velhos; pode escrever sua própria novela; pode fazer fantoches com os dedos e rir da própria babaquice. A gente pode tudo. Porque a gente não quer partir, não quer se deixar, não quer deixar de ser.
Clarice, a ucraniana, fala, em seu último livro, sobre uma fulana que queria ser estrela. Veio do nada e queria ir para onde tivesse tudo. A mulher brilhou – quando partiu. Mas foi estrela. Se sentiu estrela. Nada a ofuscou.
Tá, bom, Clarice. Eu quero ser estrela. Mas não quando morrer.
Mas mesmo assim, valeu a intenção. 


(Ouça Moon Over Bourbon Street, Sting)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Necessidades


Tudo
Quer
Diferença.
Tudo
Precisa
De diferença.
O escuro
Precisa
Do claro
 - Eis a noite.
O céu
Precisa
Do amarelo
 - Eis o verão.
A vida
Precisa
Da morte
 - Eis a essência.
O resto
Precisa
Do todo
 - Eis a plenitude.
A âncora
Precisa
Do mar
 - Eis a imortalidade.
O certo
Precisa
Do errado
 - Eis o avesso.
O espaço
Precisa
Do silêncio
 - Eis a concentração.
O tempo
Precisa
Do choro
  - Eis o sorriso.
O som
Precisa
De cordas
 - Eis a perfeição.
A palavra
Precisa
Do acento
 - Eis a compreensão.
O vento
Precisa
De nós
 - Eis a libertação.
A libertação
Precisa
Da prisão
...
- Eis a conclusão.

N.G.
(Pascal Petit)
(Ouça We Never Change, Coldplay)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A bomba e a metáfora


Era pra ser só uma bomba – dessas com prazo de validade e que às vezes vem com defeito de fabricação. Devia apenas trabalhar quieta, sem nenhum barulho capaz de ultrapassar o som das mais de cem mil batidas diárias que o peito abriga. Era pra ser apenas um órgão fundamental, desses que a gente não é louco de tirar do corpo, que a gente descuida quando vai à churrascaria, que a gente só lembra quando houve falar de problema.
Mas não. Resolveram dar nome ao bicho. Resolveram chamar de coração porque rima com paixão – culpemos o pagode, oh, o bendito pagode que reina nos MP1000 espalhados pela cidade (e carentes de um fone de ouvido quando estão no ônibus). Resolveram desenhar o bicho, mas esqueceram das suas válvulas, ventrículos e ventosas. Resolveram dizer que o coração é representado por uma letra que beija um número. Resolveram dizer que ele é um bicho de sete cabeças. Resolveram culpar o coração por todas as tolices humanas – isso quando todas as tolices humanas só acontecem porque os corações destes indivíduos que dizem todas essas baboseiras batem muito bem, obrigado.
A bomba sofre. Prefere aguentar um vermelho que não acaba mais a ter que ouvir frases compartilhadas por desconhecidos sobre sua fantasiosa personalidade. A bomba quer ser respeitada – já bastam anomalias de posição, funcionamento ou tamanho, não é possível que haja força para suportar a melancolia de ignorantes cansados de sofrer por que querem.
Todo coração merece compaixão. Merece respeito. Merece atenção. E merece tudo isso porque não tem culpa de nada. Aliás, ele apenas sofre as consequências. Sofre quando seu dono está triste; bate devagar. Sofre com ansiedades e compulsões; bate mais rápido do que nunca. Sofre por não sentir o que seu dono diz que o pobre sente, por estar no centro de todas as coisas. Sofre por mover tudo e todos. Sofre por ser agredido por quem diz que o ouve, que o respeita, que o preserva.
Coração não é figura de linguagem. Se fosse, você não teria um aparelho de pressão para medir o estrago da intensidade que as suas emoções te causam – você teria uma gramática decifrando o mundo das metáforas, metonímias e outros alucinógenos... Ou teria um CD de pagode toda vez que achasse que a morte está próxima.
E aí? Já comprou sua manteiga sem sal hoje?



(Ouça Coração Leviano na voz de Djavan)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

“Underground”

Há alguns dias, deparamo-nos com notícias sobre projetos políticos (?) que queriam promover a segurança sobre direitos autorais no “núcleo central” da democracia: a web. Autores, cantores, editoras, gravadoras... – ou seja, todas as entidades detentoras de direitos sobre músicas, textos ou qualquer outro tipo de “mídia” serão totalmente beneficiadas. E nós, pobres seres mortais, amigos do ócio e da obesidade mórbida e feitos sinteticamente de sedentarismo puro e cristalino, é claro, seremos punidos. Para que não haja punição, devemos acabar com aquela velha e boa solidariedade virtual que chamamos de “compartilhamento de arquivos” – e não pense que é só o pobre nerd de mãos engorduradas e espinhas no rosto que sofrerá com pipas, sopas e outras siglas de gosto duvidoso. O funkeiro, forrozeiro, roqueiro, amigo do gueto ou até mesmo a pobre pessoa que quer apenas baixar o último lançamento da Britnéia terá que dirigir-se à loja virtual mais próxima e gastar um suadíssimo dinheiro numa única canção – isso se ela não quiser afastar suas nádegas da cadeira e gastar mais dinheiro ainda numa livraria. Nada contra as livrarias... Inclusive, deixo claro que não há coisa melhor do que sucumbir ao site dessas super lojas e vibrar com descontos em cd’s originais dos seus ídolos.

Vamos resumir estas palavras? Faremos melhor: que tal descodifica-las?

Para os extremistas de plantão, o capitalismo chegou ao seu limite máximo. Para os viciados em política, a crise resolveu estampar as páginas policiais com fotos de donos de site de compartilhamento escondidos em cofres abarrotados de dólares, euros e outras “verdinhas”. Para os revoltados, fica a pergunta: será que ao menos sobrará o Twitter para registrar meus xingamentos no mundo ou terei que pagar para mandar todas essas entidades para aquele lugar onde o Sol não bate?

E para os desacreditados, futuros suicidas e “posers” (expliquem-me o real significado desta palavrinha), só resta propagar o fato de que uma menina não compareceu ao comercial do papai porque foi... Bom, vocês sabem para onde Luiza foi.

O que vim fazer aqui? Bom, esta é a mesma pergunta que milhares, milhões e zilhões de pessoas fazem neste momento ao receberem o aviso dos seus lindos computadores que a conexão com “a rede” está autorizada. Até os marmanjos – pobres homens adjetivados de forma brega e decadente veem-se sem chão com o fim da pornografia virtual. Os pais preocupados agradecem. Os garotos vitimados pela puberdade enlouquecem.

De repente, regredimos. Nossos pais, avós e as gerações mais anteriores ainda conseguiram viver sem TV, rádio ou outras coisas que hoje são indispensáveis para nós – e viveram sem a web, minha gente! Mas em qual século? Em qual milênio? Num tempo bem distante, isto é bem certo. Num tempo com costumes diferentes, com pessoas diferentes, com clima diferente... Eles viveram com o que construíram: invenções, teorias, obras de arte etc. Nós vivemos da opinião que construímos, das nossas invenções, vivemos da evolução de quem não vive mais. E não nos esquecemos de nada... Só de ex-BBBs, mas isso (ainda) é permitido.

Tenho medo dessa insanidade virtual, desse vírus de poder (e de metáforas) que invade nosso mundo. Somos diferentes dos que foram há anos e dos que vão ser daqui a anos. Não é possível que nossas opiniões, tão bem registradas na internet se esvaem para que os já intactos padrões de cultura sejam mantidos e obedecidos ao pé da letra. Não é possível que deixemos de ter nosso precioso espaço para mostrar quem somos e do que gostamos.

Enfim, aqui estamos. 2012 chegou... E isso está sendo gritado há quase um mês. Mas agora, o medo não é da morte propriamente dita. Nós temos medo de ver nossas opiniões morrerem. Temos medo de perder o reinado que o poder do livre arbítrio nos deu. Ah, como queríamos que esta fosse apenas uma época de revolta política, onde caras pintadas e sangue no asfalto fossem o suficiente para nos trazer a liberdade que queríamos...

 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A despedida, a comemoração e a harmonia nossa de cada dia

Durante um ano (mais que isso, ok), esse blog abrigou dezenas de conjuntos de palavras que se intitulam “descodificadoras”. Aliás, esse adjetivo foi citado inúmeras vezes por aqui, o que faz com que eu me sinta bem repetitiva.
Durante três anos, vivi as loucuras de um ensino médio que vai fazer falta. Ok, isso não é um blog colegial, mas preciso destacar a importância desse tempo e dessa experiência (que já foi citada aqui). Afinal de contas, o que seria de mim sem as tantas codificações que aquela escola me proporcionou?
Durante meses e meses, espero pelo começo das férias. Para que a minha dedicação a este portal seja maior, para deixar de lado a necessidade de um ritmo “tranquilo” na semana e principalmente para aposentar meu pobre despertador – não sentirei saudades dos seus berros antes das sete, querido Jay Kay.
E agora, ansiosa e com medo da chuva apertar e dificultar minha volta pra casa depois de um dia de nenhuma tarefa no estágio, só tenho uma coisa a fazer: tentar dedilhar algumas palavras antes do centésimo post. Vocês leram direito. Centésimo.
Dedilhar... Sei que os leitores mais críticos e embalados pela brincadeira de fingir que é intelectual implicarão com este estranho verbo. E eu também implico com ele, apesar de adorar falá-lo – ou seja, também estou na brincadeira, no faz de conta. Antes que comecem a perguntar: “uai, eu pensei que dedilhar fosse algo exclusivo para instrumentistas, esse blog é feito de cordas?”, preciso dizer: calem-se, assim vocês me deixam mais louca ainda!
Sim, me apossei do verbo mesmo, na cara de pau. Explicações básicas: não toco violão, mesmo morrendo de vontade de aprender. Aliás, não toco nenhum instrumento além de guitarra imaginária e bateria de lápis e caneta. Então por que dedilho:
Hora da teoria do dia, amiguinhos.
Vamos fazer uma roda bem bonita e descodificar o verbo dedilhar. Ligando o lado lúdico da mente... Isso aí. Se imaginarmos esse tal verbo com os olhos bem fechados... Delicadeza. Vejo gestos delicados em volta das cordas. Como se essas cordas fossem fios de cabelo que a gente alisa, acaricia etc. E então sai aquele som lindo, maravilhoso, poderoso e... Ei, dá pra parar de reclamar que eu to enfeitando demais? Eu avisei, liga o lado lúdico! Que saco!
Enquanto bato com força nessas teclas quase apagadas para gerar as palavras nesta tela que se posiciona na exata altura dos meus olhos, sinto que estou dedilhando palavras. Criando uma harmonia entre essas letras soltas e formando significados distintos para cada mente. Portanto, dedilhamos nesse blog umas... cem vezes? Quase! Estamos chegando lá. Mas deixemos pra pensar em comemorações numa próxima rodada. O que importa agora é a consciência de que sim, somos capazes de gerar todo e qualquer tipo de harmonia em nossas vidas.
Como eu já disse uma vez, a nossa vida é feita de sons. No fim das contas, tudo dá em barulho ou sinfonia. Pode ser uma orquestra triste. Um violão ao pôr-do-sol. Uma guitarra às duas da manhã. Um agogô no meio do Pelourinho. Uma bateria de escola de samba exaltando as belezas mais raras e profundas de algum lugar do mundo. O piano de um café rebuscado e cheio de requinte. Um sax pra mostrar solidão, angústia e sorrisinho charmoso. Uma sanfona turbinada, em polvorosa. Um “tchechererêtchetchê” pra chamar de seu, sem eira nem beira, só pra explorar o sex appel da sua camisa xadrez e o poder de sedução do seu cabelo espetado. Um cavaquinho cheio de boemia e história pra contar. Um “pagodim” desletrado só pra extravasar e modernizar a velha frase “garçom, aqui nessa mesa de bar, você já cansou de escutar...”.
Ou um batidão boladão cheio de inspiração. Ou não.
Ah, vocês é quem sabem... Vocês são quem harmonizam e desarmonizam suas vidas. E que façam isso com cuidado, cautela ou coisa parecida. Que saibam respeitar momentos, sintonizar sentimentos, rimar... É, tenho aprendido que rimar não é tão necessário assim. Afinal, existem coisas mais importantes, como não perder o foco.
Eu falo de harmonia. Enquanto isso, falo de despedida. Tô dizendo tchau pra um monte de gente que eu vi amadurecer comigo. Tô dizendo oi pra um ano que já chega com o título de “exterminador do futuro”. Tô contendo as lágrimas, tentando parar de roer as unhas e enchendo bolas pra festa imaginária desta casa. Tô aqui, pensando na vida, enquanto ainda me restam 70 minutos de trabalho.
É a vida, como sempre. Eu escolhi minha canção favorita. Ainda troco de vez em quando, mas não é por mal. É só por vício em novidades. E que esse vício me salve de qualquer resquício de saudade ou desafinação.

(Ouça Eu e a vida, Jorge Vercillo)
anna bezerra(Anna Bezerra)
Je vois la vie en rose, amiguinhos.

Post 98. Contagem regressiva.

#Descodifiquem-se!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tudo sobre minha vó(vovó)

Há cinco anos, eu via um DVD do Cirque Du Solei quando minha mãe chegou com os olhos vermelhos e um ar tristonho. Por mais criança que fosse, eu já poderia muito bem imaginar a situação.

Pois bem. No dia 28 de novembro de 2006, minha bisavó – não gosto dessa palavra, prefiro o termo que inventei quando tinha poucos anos de vida, vovovó – morreu. Isso mesmo, não pretendo usar eufemismos na tentativa de suavizar algo que é simples de ser entendido. Poderia dizer que ela partiu, foi embora ou virou uma estrelinha... Não. Acho que a morte é séria demais pra ganhar um tom desses. As pessoas nascem, crescem e morrem – como posso modificar uma das primeiras frases que aprendi na vida? A morte é uma etapa, faz parte. Mesmo que infelizmente.

Vovovó morreu, mas um monte de coisas ficou. Sério, é como se ela estivesse aqui, agora, em qualquer lugar. Acho que não cabe a mim discutir essas histórias de vida após a morte, isso é algo que não pertence à dimensão que vivo. Simplesmente acho que as lembranças são o suficiente. Quando vovó morreu, nem cheguei a pensar que ela fosse virar um anjo. Primeiro porque ela não curtia muito essa história de anjos. E porque sempre me esqueço de usar essa teoria quando alguém morre. Também não pensei na hipótese dos fantasmas. Sim, sei que vovovó fazia questão de ser onipresente, mas não consigo conceber a ideia de que a morte simplesmente nos torna invisíveis – e se quisermos ser vistos, é só puxar uma corrente ou usar um lençol branco cobrindo o corpo. Vovovó não gostava de fantasmas. Aliás, ela detestava filmes de terror, sempre preferiu os que retratavam as histórias bíblicas que ela gostava de nos contar. Às vezes ria de alguma comédia, ou se prendia a um documentário sobre alguma figura importante para o mundo. Ah, ela adorava novelas, todas elas. Mas ela gostava desses programas de fofoca, algo bem trash como Luciana Gimenez ou Sônia Abrão. Vovovó adorava rir de piadas inteligentes, e até as de português que eu lia no jornal e ia correndo contar para ela. Fazia o tipo conservadora, e dizia que só me deixaria namorar aos 18 – ainda bem que consegui uma brecha para os 15. Eu era a bisneta mais velha, e sim, fiz parte de uma seleta lista secretíssima em sua mente. A gente se deliciava com os churrascos feitos por meus tios, desses que a empregada fica com o cabelo em pé quando tem que limpar a churrasqueira e outras partes da casa. Os almoços de fim de ano eram verdadeiros banquetes. Sorteios sobre a mesa repleta de parentes e amigos, risadas... E como não lembrar o seu bocapiu? Para quem não sabe, bocapiu é uma bolsa de palha que dá pra levar de um tudo. Vovovó provava que era a boa nordestina que ainda usava bocapiu... Deus, aquelas bolsas são geniais.

Vovovó era vaidosa. Senhorinha de igreja, inteligente, importante, pronta para falar, fazer e acontecer. E amava ensinar. Graças a ela, sei ler e escrever. Graças a ela, esse blog que amo tanto existe. Graças a ela, eu existo.

Ela não está aqui. Não está sentada na sala fazendo crochê ou tricô enquanto ouve a lista de óbitos da programação vespertina da Rede TV. Ela não está na mesa da varanda tentando me ensinar a fazer a prova dos nove. Ela não está no telefone com minha avó programando o almoço de domingo. Ela não está atrás de suas torradas levemente salgadas e seu chá de erva doce, nem está tirando uma soneca no “cafofo” enquanto a mesa do lanche é arrumada. Vovovó está em um lugar melhor. Está nos meus sonhos, está nos meus pensamentos e nas minhas centenas de milhares de rezas diárias. Está nas minhas aflições e nos meus melhores momentos. Vovovó não é só mais um tipo padronizado de senhorinha de óculos que anda cheirosa e oferece um colo terno para seus filhos, netos e agregados. Acredito que vovovó esteja na paz de todos que a amam. Ela está na minha paz, na minha segurança, na minha fé. Está dentro de mim, assim como todos que amo e que quero por perto.

E que um dia, eu consiga ser metade do que ela sempre vai ser pra mim. Que eu possa continuar o que ela parou. E se ela puder me ver, que ela saiba disso, que continue se orgulhando de mim, mesmo estando ciente dos meus inúmeros e humanos defeitos.

1º dia de aula da Naná - fevereiro de 2003 copy

 

“Sempre graças hei de dar”.

 

#Descodifique-se.