segunda-feira, 14 de maio de 2012
Venhamos e convenhamos #5
sexta-feira, 30 de março de 2012
Venhamos e Convenhamos #4
Perdoe a infâmia do nosso último encontro. É que eu precisava de algo quente, que pudesse me regenerar. Acabei tomando um café.
Ah, meu bom... Os ventos mudam. Março está pelo fim, decapitado, sem ar. E eu? Olha só: eu estou viva. Para a felicidade geral da nação. Ou não.
Te vi um dia desses. Mas eu estava dormindo. Não vale.
Ando por aí, sabe? Pés bem afeiçoados, atrás de novas pedras para conviver dentro dos sapatos. Ando por aí pensando no que vai acontecer. Às vezes, ando só por andar, só pra não travar as pernas.
E nessa monotonia que se instaurou no ritmo – ou na falta do tal – dos meus passos, flagrei-me vítima de um descomunal desânimo. Algo nunca antes visto nas minhas propriedades cerebrais. Falta de inspiração, talvez. Falta de vontade. Falta de crença.
Falta de café.
Alguém já ousou falar sobre o que a falta do que fazer provoca no ser humano: mais falta do que fazer ainda. Devo aplaudir este cidadão. Que sujeito sabido.
Mas aí, caro amigo, diante desta plena sensação de imperfeição, congestão, solidão e desapego, dou-me a outro flagra: sempre que apago, que desligo a máquina que ilumina meu todo lá do topo, surge a inspiração. As palavras – antes tão esquecidas num canto isolado da célula – resolvem dar o ar da graça. Não posso negar meu amor por tal sensação. É bom sentir que ainda há vida dentro de mim. Mas gostaria mesmo é que a vida aparecesse todo dia, toda hora, todo segundo...
Interrompo tuas perguntas. Eis que um súbito pensamento me envolve sem que eu permita. Sinto que este meu pensamento completará os teus... Prestemos atenção!
Dizem que há vida em tudo. Em flores, em bichos, em céus, em mares, até em DJs. Há vida porque respira – não porque a alma respira, mas sim porque os pulmões cumprem corretamente sua função. Dizem milhares de coisas. Eu acredito em apenas uma. No momento, acredito que tudo podia ser diferente. Eu podia ter outro nome. Podia gostar de outra cor. Podia ter comido outra coisa no almoço. Podia ter ganhado outro presente no meu aniversário. Acredito em diferenças. Acredito que a alma e o pulmão são diferentes como o pão e a carne. Mas eu gosto dos dois. Gosto de sentir o gosto de cada um. Faz com que eu me sinta mais humana do que realmente sou.
Caro amigo, se há tanta diferença entre tais órgãos de ares divergentes, será que posso crer em algo mais forte dentro de mim? Posso crer que preciso de divergências, então? Posso crer que além de respirar, preciso de inspiração?
E entre essas milhares de coisas que são ditas e aquela em que acredito, sobrou-me um velho dito popular: os opostos se atraem. O verbo atrair faz com que o verbo completar nasça do meio de um bando de cinzas. Os opostos se completam. A alma e o pulmão precisam de fusão. A alma requer vida; a vida requer alma. O ar precisa de inspiração para continuar; a inspiração precisa de ar para existir. Eu respiro... Eu me inspiro. É mais ou menos assim? Ora, começo a achar que sim.
Vai que preciso me contentar com o fato de estar viva para que haja um pouco de luz na minha cabeça. Vai que eu preciso de uma pouco mais de ar para me iluminar. Novos ares... Novas inspirações. Gostei disso.
Talvez precisemos disso. Precisemos fugir para voltar a viver como achamos que queremos viver. Vamos passear por aí, nas curvas dos nossos gráficos cerebrais, quem sabe escalar nossas paredes cranianas e nos perder entre o ar não filtrado que as nossas narinas sugam. Vamos continuar andando, e esperar um novo ar trazer uma nova inspiração. Vamos juntos, meu bom. Embarque comigo numa viagem: vamos acordar e então viver. Viver pelo que vai ser vivido. Descobrir o que ainda descobriremos. Ousar nas nossas próprias ousadias. Pleonarizar nossas próprias energias. Passear por nós mesmos, ter todas as esquinas como moradia.
É um belo convite, não?
Ah, companheiro... Você faz com que eu me sinta inteligente novamente. Amo isso.
Até qualquer hora. Ah, e não se esqueça: os ventos virão fortes a partir de agora. Portanto, trate de tomar sua vitamina C.
(Ouça Lovesong, Adele)
segunda-feira, 19 de março de 2012
Venhamos e convenhamos #3
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Venhamos e convenhamos #2
Ah, é tanta coisa pra contar que é melhor ficar calado. A gente perde tempo demais contando as tragédias da chuva ou simplesmente apostando nossas fichas numa invejável animação para contar as divertidas aventuras do início do ano. Ah, vamos fazer o seguinte? Vamos falar sobre o que queremos fazer quando esse ano resolver começar. Sabemos que é uma péssima ideia. Mas reciclar péssimas ideias é o tipo de ação que pode salvar o planeta, amiguinho. Não concorda?
Eu posso adivinhar seus desejos para esse ano com cara de apocalíptico. Você quer o mesmo que eu, meu caro. Quer ganhar uns contos... Contos em todos os sentidos. Quer ganhar dinheiro contando as histórias que quer ganhar também. Quer ganhar um amorzinho pra enrolar os cabelos quando o filme ficar chato e pra ligar e dizer aquelas baboseiras que a gente adora ouvir, quer fechar sua sala de estar e colocar aquela música detestada por todos e amada veemente por você, para dança-la até o sol dar as caras. Ah, você quer que todos saibam seu nome. Mas aposto que você detestaria ser atormentado no meio da rua para que lhe sacassem um registro do momento. Você, meu caro amigo, tem coisa melhor a fazer do que ser idolatrado por um bando de desorientados com tendência ao que podemos chamar de regresso. Ei, mais uma coisa em comum. Acho que é por isso que nos damos tão bem.
Não me diga que você quer pular o carnaval. Assim como eu, você vai ver as cores da Sapucaí na bela TV LCD do seu quarto, enquanto devora uma pipoca doce e curte o arrepio delicioso provocado pelo ar condicionado. Você gosta de pular, mas não quando uma data manda você pular com a desculpa de que você deve participar da alegria da multidão. Você gosta da alegria idiota de pular quando ouve aquela música de cinco anos atrás ou quando há uma cintura usuária de um bambolê invisível ao seu lado. Você ama isso, essa coisa de não ter hora para nada nem para ninguém. E ama também a ilusão de poder estar aonde quiser no momento que a cabeça permitir. Ah, quando março começar... Eu não sei onde vou estar. Acho que nem você sabe, adivinhei? Ui, já posso me profissionalizar nesse troço.
Venhamos e convenhamos, não há como sentir saudades do ano que passou. O acúmulo de coisas boas e ruins é inevitável, por mais que o saldo seja sempre negativo no dia trinta e um dezembro. Mas é aquilo, passou, folha arrancada, página virada. E eu sei como deve doer a dor da agressão desse novo ano que pede coisas novas... Sendo que a única coisa que você quer é viver como se não houvesse mês, semana ou dia. Temos mentes gêmeas, meu caro. Não vou estranhar se nossos pais forem os mesmos. Se não forem, precisamos dar um jeito de ficarmos juntos até que as sobrenaturalidades da vida resolvam nos separar.
Que a gente consiga tudo o que queremos. E o que a gente não conseguir, a gente recicla, assim como fazemos com nossas ideias que tem tudo para darem errado, e no fim das contas, rendem um bom papo.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Venhamos e convenhamos #1
Olá, caro amigo. Seja o que for, real ou imaginário… Será que pode me ler?
A semana? Ah, foi ótima. Cansativa. Muito. Vinte e quatro horas? Que nada… Muito pouco. Mas é aquilo, né? Não vale ficar só na reclamação.
Ah, os tempos têm sido agradáveis. Sabe, apareceu por aqui uma sensação de encaixe. Conheço-te bem, sei que levará minhas palavras para um lado oculto, guardadinho aí dentro de você… Sei que as converterá em podridão. Mas é o risco que corro, e que é bom correr de vez em quando. O duplo sentido não é tão ruim assim. É engraçado… Como se diz… Pitoresco. Adoro essa palavra.
Eu até que poderia fazer um resumo dos acontecimentos mais importantes, mas creio que meus neurônios não colaborarão. Tem um sax no meu ouvido me chamando de velha. E eu sei, meu caro, que você me diria o mesmo. Eu não sou velha. Acho que não. Não tomo vinho enquanto ajeito os óculos e me queixo dos homens. Nem uso óculos. Nem tomo vinho. Nem me queixo de ninguém. Só de uns imbecis aí… Mas já me acostumei com a imbecilidade humana. Você, por exemplo, é uma amostra grátis do que chamo de babaquice. Acho que te conheço, mas não sei quem você é. Nem sei se você existe. Porque tem vezes que a gente inventa as pessoas, ou adapta as que conhecemos. Adapta. Bem mentalmente.
Sabe, amanhã será um dia bem importante. Creio que vai chover, como tem sido nos últimos dias. Uma sensação de “futuro batendo na porta” me laçou. Acho que gosto disso. Acho que não. Detesto programar as coisas, você sabe. Aliás, você sabe também que odeio injustiça. Odeio, por exemplo, a porcaria da falta de tempo. E odeio o fato de ter que dormir tarde. Ah, como odeio hipocrisia, amiguinho. Sério, a vontade que dá é de esmagar a falsidade que vejo por aí. Mas tenho medo que isso faça de mim uma pessoa clichê. Logo, estou sendo hipócrita. Mas acalme-se. Não me odeio.
Menino, você viu o preço da ceia de Natal? Nem eu. Será que está pela hora da morte? Será que dá pra pagar no cartão? Ui, não sei. Só sei que tá difícil puxar assunto… Ando cansada, e feliz, amigo. Venhamos e convenhamos: alguma vez na vida a gente precisa se dar a alguma coisa. Sei lá, um sonho, um desejo, uma nova realidade… Penso que todas as vezes que imaginei que os meus planos não dariam certo só serviram para dar um nó na garganta. Cara, esqueci tua voz. Como ela deve estar agora? Fina? Grossa? Rouca? Ai, não sei… Só sei que a gente aprende a viver aos poucos. Vendo novela, vendo o marido matar o amante da mulher, vendo o filme do cara que fica doido, vendo a amiga chorando, vendo a família pirando, vendo tudo acontecendo… E eu mudando. E a gente mudando, companheiro. Como se não fosse nada. Como se viver fosse o veneno e o antídoto, a doença e a cura.
E então vivemos. Eu juntando uns trocados, você aí, perdido num imaginário que eu criei e larguei em algum lugar. Deixa que a gente decide como termina essa redação, como esse livro acaba, como essa frase morre. Deixa que a gente faz o resto virar começo. E o que a gente pode chamar de fim? Ainda não sei… Mas isso é papo pra mais de hora. A gente aprende também.
Mas é isso. Vamos rachar a conta?
(Ouça Frank Sinatra, The Way You Look Tonight)

