Mostrando postagens com marcador Da madrugada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Da madrugada. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Medos e bocejos

2 horas da manhã. Nos meus dedos, o frio teclado digital do tablet - frio porque não sinto a profundidade do teclado do computador, sinto apenas uma tela que ficará manchada pelas minhas digitais. Já bocejei, já despertei, já bocejei de novo e dou meu mindinho do pé para não despertar mais uma vez. De repente, dei pra pensar nos meus medos, tão exaustivos e superficiais - como eu.
Tenho medo de ver o dia amanhecer. Não que eu não goste do sol, pelo contrário. Não gosto é de perceber que encarei dois ou mais dias seguidos sem sonhar durante a noite. Uma sensação de que atravessei o tempo. Ou seja, um medo poético - pura frescura.
Não, não tenho medo de avião. É só não tocar mamonas dentro do bicho que eu fico bem. Simples assim.
Meu maior medo no momento? De elevador. Não gosto de caixas - nem que sejam de sapato. Não que eu seja claustrofóbica, mas a possibilidade de ficar presa em um lugar escuro entre um andar e outro não é nem um pouco legal. Mas preciso superá-lo, afinal não quero ser uma adulta problemática. Com os pensamentos ligados no modo madrugada, imagino que, a qualquer momento e em qualquer lugar, posso ficar presa e no escuro - não só em elevadores. Aliás, eles não tem culpa de nada, são bichos tão inteligentes quanto aviões ou computadores - a maluca sou eu. Pronto, o medo virou solidariedade.
Tenho medo de insetos. Qualquer animal que voe me preocupa - até mesmo pilotos imbecis. Digo isso porque sei que eu pudesse voar, faria merda. Imagine um animal mil vezes menor que eu? Bom, ainda bem que Deus não deu asas à cobra. Melhor assim.
Tenho medo de brigas. Qualquer briga. Morro de medo de quem desliga o motor da consciência e joga merda no ventilador. De quem não sabe usar a matemática do bom senso e não mede suas palavras. Seres humanos nervosos são piores que bombas nucleares.
Tenho medo de outras coisas que o sono não me permite lembrae. Mas medos são tão ridículos... assim como a vida, cartas de amor e redes sociais. Ruim com eles, pior sem eles. Será?
Não despertei. Acho que vou arrancar meu mindinho e oferecê-lo a Morfeu.
(Ouçam summer breaze, jason mraz)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os sentidos da madrugada

A noite cai. O frio desce. Mas aqui dentro predomina a insônia que me aquece. Risos.
A madrugada, sem sombra de dúvidas, é a hora mais envolvente do dia (ou da noite, sei lá). A manhã é chata, tem um hálito péssimo, é remelenta, entediante. A tarde? Pior ainda. Você almoça e não pode tirar uma soneca ou porque trabalha ou porque se tortura com a ideia de não ter sono à noite. A noite é cansativa, tem novela das oito, tem bocejo, tem cheiro bom que vem da casa do vizinho enquanto você não sabe o que vai fazer pra comer. Aí você acorda no meio da noite - na madrugada - e... Merda! Perdi o sono. Vou ter que ver o Corujão.
Mas a madrugada tem seu valor. É loucamente humana, insensata. Detém toda a criatividade que move a gente. Pare pra pensar: a madrugada também tem os cinco (ou seis) sentidos que nos dominam. Xô te explicar.
Você toca as teclas do controle remoto ou do computador com ternura. Ou toca violão com cuidado pra não acordar ninguém. Ou toca sua pele e tenta sentir suas espinhas ou rugas. Ou toca seus cabelos e fica admirada com o estado maravilhoso em que eles se encontram. E antes que vocês pensem bobagem, vamos parar por aqui.
Você sente um cheiro gostoso de sereno. Ou o cheiro da pipoca pra ver o tal do Corujão. Ou sente o cheiro do perfume de alguém que foi embora. O cheiro de terra molhada, de despudor, de melancolia. É.
Você vê filmes, shows. Ou lê um livro. Ou vê uma foto e sorri - ou, na maioria dos casos, chora. Você vê seus sorrisos ou lágrimas tatuados no espelho. Você se assusta consigo mesmo - ou com o mundo que vai despertar daqui a duas horas.
Você sente o gosto do leite morninho pro sono voltar. Ou o gosto de um beijo gostoso que ganhou um dia desses ou há muito tempo. O gosto das sobras do almoço ou do jantar. O amargo gosto da solidão da madrugada. O gosto do chocolate pra controlar a ansiedade. O gosto do cansaço. O gosto da vitória que vem com o fracasso.
Você ouve uma canção que te faz dançar. Ou a voz daquele que foi embora e podia voltar. Ou o eco da sua própria voz invadindo a sala de estar. Ouve o despertador que vai tocar daqui a pouco - e você estará derrubado no sofá, depois de uma noite mal dormida. Você ouve seus medos gritarem dentro de você - medo de avião, de elevador, de ver o amanhecer. Você ouve os fantasmas que fazem o silêncio. Você não ouve mais nada.
Você prevê o dia que vai chegar. Faz planos, sonha com os olhos abertos, se perde nas próprias aventuras. Tenta boicotar o destino, o que já está escrito - você não acredita em destino. Você se vê daqui a dez, cem, mil anos - em outra casa, com outras pessoas, vivendo outras vidas, sendo quem é agora, sendo outra pessoa, sendo uma abelha, sendo um leão. Você faz um resumo de tudo que já viveu - e chora, e ri, e se arrepende, e grita, e cala, e boceja. Tá na hora de viver o que realmente virá. Tá na hora de dormir pra acordar. Não espere a mamãe mandar.
Um bom sono pra você e um alegre despertar.

(Ouça O silêncio das estrelas, Dudu Falcão)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Elisa



ATENÇÃO: este é um relato pessoal.  Se você não gosta da minha pessoa, é melhor voltar para o site da Capricho. Pensa que eu não sei? Hum...

Eu tinha 4 ou 5 anos quando comecei a falar dela. Minha vó estava lavando roupa ou algo do tipo, e eu, cansada de ficar sentada vendo tevê ou “pular” (esse é o apelido fofo que davam à minha estranha mania de pegar um graveto ou uma escumadeira e fazer de microfone, enquanto em pulava para um lado e para o outro), decidi puxar assunto. Falei de uma amiga que me visitava toda noite, bem mais velha que eu e cheia de história para contar. Com 4 anos, eu contava todos os problemas pessoais de uma garota de 19 que ajudava os pais a administrar uma pizzaria além de N compromissos e agitações. Você deve pensar: “nossa, que prodígio”. Eu penso: “o que deu em mim?”.
Durante toda a minha infância, acreditei que Elisa era tão imaginária que ninguém mais podia conceber sua real existência. Às vezes me sentia culpada, “estou mentido para meus pais e minha família sobre alguém que não existe”, sendo que, no fundo, no fundo, não era mentira. Eu não via Elisa – devo ter visto em algum sonho ou imaginação forçada, mas nunca passou disso. Ela nunca abriu a porta do meu quarto e sentou comigo no chão para falar sobre a vida e sobre Cinco Amores, sua suntuosa cidade natal. Era isso que eu dizia a todos – aliás, isso fez com que, até hoje, meus tios ou primos me perguntem: “E a Elisa?”. Mas tem horas que a imaginação ultrapassa todas as barreiras e acaba se tornando real. Não, não estou falando daquela velha teoria de que acabamos acreditando na própria mentira – pensar na Elisa como uma mentira chega a ser uma ofensa.
Podem me chamar de louca, eu sei que esse é um dos poucos adjetivos que cabem na minha real definição. Mas a história de Elisa, por mais que pareça uma loucura, é de longe a mais pura realidade que já vivi – mesmo num tempo de total imaturidade, se hoje tenho noção das minhas responsabilidades e compreendo o mundo e seus habitantes mais loucos que eu, devo isso a esta garota, minha melhor amiga. Aliás, acho “melhor amiga” um termo um pouco clichê; talvez Elisa fosse minha companheira de sonho ou de realidade, ou talvez a prova viva de que a imaginação não é apenas algo que fica do lado de dentro. Hoje em dia, luto para ser igual a ela – não com os mesmos problemas, mas com a mesa garra e as mesmas manias.
Um lado meu metido a psicólogo diz que Elisa podia ser, na verdade, uma segunda personalidade minha, mas procuro dispensar essa ideia – afinal, seria muita vaidade de minha parte. Por que estou falando dessa parte tão confusa e um pouco paranormal da minha vida? Em primeiro lugar, eu dizia que Elisa fazia aniversário no dia 19 de novembro. Em segundo, acho importante dividir com o mundo a importância dessa espécie de realidade vestida de fábula. Em terceiro... Ah, vamos parar no segundo item, por favor.
Já pensei em escrever um livro com o pouco que me lembro dela. Ora, eu desenhava seu rosto, dizia a cor de seus cabelos, o nome dos seus parentes... Hoje em dia, lembro-me apenas do que eu dizia que sempre conversávamos – as preocupações, os sonhos, as tolices de meninas, a vontade de crescer ou ficar parada por alguns segundos... Pelas minhas contas (baseadas em uma matemática horrenda, diga-se de passagem), Elisa teria trinta anos. Se ela quiser voltar para me dar umas dicas de como me portar na fase adulta, serei eternamente grata.
Se um dia você teve um amigo imaginário (não gosto muito de usar esse termo, mas preciso queimar esse preconceito dentro de mim), pense nele, reze por ele ou simplesmente tente se lembrar de como era a relação de vocês. Porque toda felicidade ou realização pessoal é movida por válvulas de escape. 
 (Imagem: Tumblr)














(Ouça Something's missing - John Mayer)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Descodificando o amor virtual

Foi assim: pouco antes de desligar o notebook, entrei no Facebook (viciadamente) e deparei-me com algo que tem sido frequente nesta redezinha em que mais nada me abisma. Mas é que fiquei tão enjoada e descabelada que precisei compartilhar isso com vocês, caros leitores brasileiros, americanos, africanos, europeus e de todo o mundo - Deus salve o Google Tradutor.
Alianças de noivado, compromisso, bla bla blá. Gente falando demais, se amando demais, dedicando canções, fazendo corações com a mão, declarando-se altamente (e perigosamente) apaixonada... Espera aí que eu vou dar uma vomitada e já volto.
O amor virtual é um dos amores mais falsos que há - e essa é uma das certezas que eu nunca vou deixar de acreditar, mesmo quando um sujeito aparecer em minha vida e me fazer amar loucamente. Aliás, o Facebook me fez mudar de opinião sobre algo que sempre acreditei estupidamente: eu pensava que o amor era o tipo de sentimento que devia ser gritado, compartilhado, tatuado na testa, fincado no corpo, que devia parar o mundo só por ser amor, por ser algo verdadeiro, vindo das entranhas do indivíduo que o sente. Deus, como eu estava errada.
Graças à invenção do senhor Zuckerberg, do Saverin e daqueles gêmeos lindos que aparecem no filme, percebi que o amor virtual é algo tão frio quanto um congelador (perdão pela péssima comparação). O amor que você precisa gritar para os outros não é amor, é vaidade - e se você quer ser vaidoso ou vaidosa, é pra isso que existem espelho e maquiagem da Avon. O amor que você precisa dizer que sente não é amor, é frescura, nem chega a ser faísca. O amor que você precisa provar a todo instante por meio de invasões à conta do parceiro(a) não é amor, é possessão e falta do que fazer.
Bom, você deve estar se perguntando: por que falar de um vírus que só trabalha no colegial? Primeiro: essa parada de "colegial" não existe mais; segundo: essa praga desse amor virtual tá pegando gente que tem idade pra ser avô.
O elemento "carência" é uma merda. É uma espécie de gás hidrogênio, de nitrogênio ou de alguma substância explosiva. Altera os neurônios, os nervos, os órgãos e todo o corpo. A carência leva você a fazer coisas que podem deteriorar sua imagem (não só aquela que você quer mostrar aos outros, mas também a que você encontra no espelho e que faz você pensar que está horrível): você diz coisas ridículas, publica imagens do "Rindo no Face", publica letras de canções que nem você entende, escreve o nome do amado (ou da amada) acompanhado de um S2 com caneta Bic no braço (porque não tem grana ou idade pra fazer uma tatoo de verdade), além de assassinar a língua portuguesa com pérolas que não estou com saco para citar no momento.
É só sentir o peso da vida adulta que a carência toma proporções inimagináveis: um ser de 20, 30, 40, 50 anos ou mais volta a ter 15 anos, assinar seu nome com o sobrenome do seu ídolo (que no caso pode ser um vampiro, um jogador de futebol com um penteado mais caro que a minha escova de 60 reais ou uma "diva" que desmoraliza qualquer drag queen com suas vestes) e postar macaquices do tipo " partiu academia". Aí você vai, ama um sujeito ou uma sujeita, se desespera como uma cadela no cio e... Puf, quando o amor acaba, a vida volta a ser a mesma merda de antes.
Nenhum sentimento é desprezível ou evitável. Se sentimos dor, devemos saber porque a sentimos antes de cortá-la pela raiz - embora façamos o contrário na maioria das vezes. Se estamos tristes, devemos aprender com a merda que fizemos ou com a merda que o outro fez. Se estamos felizes, viva, lutemos para que este sentimento não se vá. Mas se amamos de verdade, se sentimos aquele amor que envolve todos os outros sentimentos citados e não citados, devemos preservá-lo. Pra que gritar pra coleguinha que o seu boy tem dona? Talvez porque você tenha vários outros, mas quer mostrar serviço mandando em todos. Pra que dizer pro mundo que você está triste, cansada, feliz, necessitada de um beijo ou que está vendo a filmografia da Jennifer Aninston enquanto chora loucamente atrás de um cara estilo Johhny Depp? Ninguém perguntou nada! - e por mais que isso aumente o seu grau de carência, é preciso encarar a verdade dos fatos.
Não vejo problemas em amar e ser amado, pelo contrário. E acho normal confundir as coisas, ora. O que acho vomitável é a necessidade de se expor, de abrir o coração para um monte de gente que não está nem aí. É pra isso que existem melhores amigas, diários e outras bizarrices.
Se há cura para a carência? Depende do momento, da pessoa, do nível de carência ou se você tá encucado por causa de alguém. Mas chega porque isso aqui não é pleinco nem revista Capricho.
Portanto, na próxima vez que pensar em gritar seu amor para o mundo, dê uma volta no corredor e pense bem se você o/a ama de verdade. E não precisa me dizer a resposta.
















(Ouça Papo Cabeça, Lulu Santos)

domingo, 21 de outubro de 2012

Primeira pessoa



Resolvi levar meus olhos para passear na calçada mais próxima, e a preguiça era tanta que escolhi o primeiro endereço que a web me ofereceu: este blog. De palavra em palavra, fui aquecendo a cabeça, a alma e a miopia. E percebi algo muito chato (que se repete nesse post): a mania de falar em primeira pessoa. Logo eu, que clamo tanto pelo “coletivo”, pelo sentimento universal, ou seja, por uma teoria ridícula de que preciso falar sobre todos, não sobre mim.
Mas queridos... Isso é impossível. É impossível falar de todos sem se colocar no meio, sem se exemplificar. É impossível citar sentimentos, pensamentos ou qualquer outra substância sem citar experiências próprias – mesmo que sejam fracas demais para serem consideradas “experiências”. Admiro muito o “socialismo” de um blog que escreve em terceira pessoa, sempre deixando suas próprias emoções de lado – mas como devo ter dito em algum lugar por aqui, esse papo socialista só é bonito no papel (e ainda assim é insuportável). Durante muito tempo, evitei falar de mim nesse portal, pois é chato demais falar de si mesmo o tempo todo. Mas percebi que evitar a chatice é atrai-la ainda mais.
Sou a primeira pessoa. Eu, Nathalie Gonçalves, chata, imprudente, que borra a maquiagem da Avon, que não suporta Indie, que não acredita em chiliques, que mesmo apaixonada pelo Hugh Grant não aguenta mais comédias românticas, que ouve Accid Jazz e acha que isso é estilo, que fala coisas tão bobas que chegam a ser indefiníveis, que quer desenhar uma mandala enorme dentro de uma roda composta por repetições da expressão “cosmic girl” nas costas, que é tão chata que para por aqui. Eu sou minha única referência – aos trancos e barrancos, eu faço a minha própria física. E de uma certa forma, quando falo de mim, falo de todos. Não que todos nós sejamos iguais... Cada um faz, fala, sente e pensa de um jeito, ora. O que quero dizer é quando falo de mim, quero que todos se sintam em segunda (e não me menos importante) pessoa ao me lerem ou me ouvirem, se houver uma voz automática em suas mentes que converta minhas palavras tão friamente digitadas em sons – ou vai que tem gente que bota tudo no Google Tradutor e fica ouvindo a voz linda daquela moça fazendo a locutora? 
Gosto de criar conexões. Gosto que minhas palavras inspirem as palavras de outras pessoas... Longe de mim fazer a linha auto ajuda, detesto dar conselhos e vender filosofias inconclusivas. O que quero é inspirar, é arrancar um sorriso que se reflita na tela do computador, é fecundar uma opinião em quem me lê – e se pra isso eu tiver que usar e abusar do pronome “eu”, ok, é um preço a se pagar.
Falar de mim é fácil... É só você sentar do meu lado e perguntar como eu sou, o que faço, o que penso, bla bla blá. Mas não sei dizer se ser eu é difícil – até porque não me lembro de ter sido outra pessoa, então não posso fazer uma comparação digna. Agora uma coisa eu posso garantir: falar em primeira pessoa, por mais colegial ou ridículo que pareça, é revigorante. Recomendo.
Perdoem-me se massacro vocês com tutoriais sobre ser alguém que ninguém é capaz de ser. Só quero inspirar vocês a criarem seus próprios tutoriais. Só quero ajuda-los numa descodificação que estou longe de alcançar, mas que, assim como vocês, tento obter. E saber que alguém me lê – seja aqui no Brasil, nos Estados Unidos, na Rússia ou na Alemanha, seja num escritório com o ar condicionado no máximo ou num quarto revirado – é muito bom.
E chega, porque já estou indo para a segunda página no Word – e não suporto massacrar vocês com palavras demais. 
(Tumblr)

(Ouça Song for a friend, Jason Mraz)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Para os perdidos



Quem disse que quero dormir?
Quem disse que quero acordar?
Quem disse que quero viver?
Quem disse que quero ficar?

Faço um poema
Canto meus versos
Detesto o tom da minha voz
Desfaço o poema
Invento outro gesto
Enrolo-me sobre os lençóis ou...

Não sei rimar
Não sei agir
Nem sei como sei esperar
Só sei chorar
Só sei fugir
Acusar
Reclamar
Passear
Distrair
Destruir

Como se faz uma estrofe?
Como se pari um trovão?
Como se diz a verdade?
Como não fazer do meio
O próprio final?

Como se aprende a rimar
Sem querer ensinar
A nada falar?
Como esquecer?
Como acabar?

Acabando...
Acabou.
Escureu. 
Esfriou.
Morreu.

 (Mixed media)














(Ouça Lanterna dos afogados, Paralamas).

domingo, 23 de setembro de 2012

A política como ela é



Oitocentos e dez milhões de resultados no Google tentaram me vencer. Mas meu santo é forte, bem. “Se liga” no compasso.
Há um bom tempo – não sei dizer quanto – eu decidi que iria fazer faculdade de Ciências Políticas. Eu acreditava que essa faculdade me faria tão inteligente que eu não caberia dentro de mim. Aí falei com mamãe – pessoa carinhosa, inteligente e de cabeça lapidada como um diamante – sobre minha suposta decisão, sendo que eu devia ter menos de quinze anos quando a tomei. E mamãe, ser sábio que é, me perguntou francamente:
“Naná, você sabe o que é política?”
Dei uma resposta tão fajuta que nem sei reproduzir hoje que já estou provida de algum punhado de inteligência. Mas falei algo que comparava política à administração de uma cidade, de uma empresa, bla bla blá. Porque eu já gostava de fazer a intelectual desde fedelha.
E segundo a Wikipédia, não estou errada, só dei uma resposta incompleta. Mas eu não confio na Wikipédia – a não ser quando quero saber da vida de algum artista.
Até mesmo na origem da palavra dá-se o técnico significado: comunidade, coletividade, sociedade. Foi o que eu quis dizer, mamãe. Me dê pelo menos meio ponto.
Na época, mamãe disse que tinha uma resposta melhor. Disse que política tinha a ver com conversa, interação, opinião. Para minha genitora, a política está no ato de conversar, de expor ideias, de aprofundar seus horizontes da forma mais simples possível. Política requer total interação, assim como sentar numa mesa de bar e conversar sobre a novela das nove e entender que a mocinha deve fazer justiça. Entendeu o que eu quis dizer ou quer que eu desenhe?
Bom, eu cresci, superei obstáculos, larguei a época de fedelha (só um pouco) e cheguei a esta tão aconchegante pocilga. Amadureci, e digeri melhor o que mamãe quis dizer. E é nessa época onde todos estão surdos graças a carros de som e caminhadas desnecessárias que resolvi compartilhar – ou melhor, descodificar - esse assunto com vocês.
Venhamos e convenhamos, falar de política é um saco. Mas que política é essa que discutimos? A política que pra nós é sempre suja, corrupta e onde ninguém presta? Porque é essa política que nós, ignorantes por motivos ridículos, temos como referência. A política da dentadura, do voto de cabresto e dos que “não valem nada”.
Tá na hora de mudar esse conceito, amiguinho.
O que este blog está tentando falar (com certa dificuldade) vai além da raiva que sentimos de engravatados, de jingles dor-de-cabecíveis e santinhos que mostram o lado mais obscuro do Photoshop – ou daqueles que não sabem usá-lo. Na cidade onde vivo, vive-se um inferno – na hora de Avenida Brasil, um vereador usa um funk com introdução daquela musiquinha do 1 Direction pra poluir milhares de cabeças com seus cinco dígitos. E todo mundo deixa pra pensar em política quando outubro chega. Tsc, tsc.
Ok, descodificando a política: esqueça os santinhos, os candidatos, os carros de som, a merda do horário político. Foque na alma do objeto. A alma do negócio. A alma da verdadeira política – aquela que esquecemos, que confundimos, que maldizemos. A verdadeira política é realmente aquela que se estabelece no ato da conversa (não no aperto de mão e na dentadura, caro candidato), na vontade de mudar. E quando digo “vontade de mudar”, não cito o velho nome que essas coligações “megacriativas” usam. Primeiro porque toda e qualquer mudança vem do ser humano, do “eu-mesmo-lírico-interior” que todos têm. Segundo que todos temos vontade de mudar, de fazer algo capaz de melhorar nossas vidas.
Então, se pensarmos por esse lado, todos somos políticos. Sim, fazemos política todo dia – aí a feminista da poltrona vai dizer: “claro, quando o cara promete que vai ligar no dia seguinte e não cumpre”, e eu digo “minha filha, louça não se lava sozinha”. Somos políticos quando pensamos, quando queremos mudar algo em nossas vidas, quando somos racionais, quando nos organizamos. Quando conversamos. Quando lutamos por um consenso. A política está em casa, na vizinhança, no trabalho, e olha só, na sua cidade. A política está no casamento da ação com o pensamento.
Portanto, ser político não é uma profissão. Se for, ser humano também é uma profissão. Todos somos políticos a partir do momento que lutamos por respostas – mesmo que sejam para nossas perguntas mais íntimas, profundas e misteriosas. Aquele cara lutando por melhorias na sua cidade nada mais é do que alguém que estudou leis, possibilidades e formas de melhorar a situação do lugar onde você vive – e eu sei que você vai concordar comigo quando eu disser que ele também devia fazer um curso de como não incomodar seus eleitores. É por isso que eu acredito que todo e qualquer cargo “político” (sem deixar de respeitar seu significado “técnico”) deve ser voluntário, pois a partir do momento em que uma comunidade abriga cidadãos políticos e seus próprios representantes, por que o tal representante deve ter privilégios? Só porque está lutando por um bem que também vai satisfazê-lo?
Muitos dirão que estou trocando as bolas, que não existe cidadão político, mas politizado. Primeiro que eu abomino esse termo “politizado”. Minha gente, não vamos ramificar algo tão simples como a política. Segundo que todo cidadão é capaz de, como eu já disse antes, exercer a sua própria política. E quem representa a comunidade deve estar munido de conhecimento suficiente para lidar com problemas e soluções – e opiniões distintas que, no fim das contas, geram uma bola de soluções para os problemas. Quem representa a comunidade deve entender que todo problema traz uma solução, mas toda solução acaba trazendo algum problema também. Por isso, é preciso ter paciência com esse círculo vicioso (espero estar usando o termo correto). E por que um representante não deve ter privilégios além de um bom banho quente quando chegar em casa? Vem cá, vocês já viram representante de turma ter privilégio? Nem ponto a mais no boletim eu tinha quando representei minha turma!
Muitos pensarão que esse é um discurso socialista – tolinhos, fiquem calmos, eu sei que o socialismo em sua forma abstrata é lindo, digno de Oscar. Mas vamos combinar que do capitalismo não dá pra sair, porque essa história de todo mundo ter tudo igual e viver feliz num comercial de margarina é um porre, além de não convencer ninguém. Não é porque a vizinha tem um CD do Luan Santana que eu também devo ter outro, assim como não permito dividir com minha vizinha a idolatria por John Mayer. Quero ter a liberdade de comprar o que quiser sem ter que parar pra pensar se o outro vai comprar também – não me entendam mal, mas é que socialismo pra mim é ditadura. Cabe à política sã de cada um se desvencilhar dos preconceitos e seguir um caminho de liberdade de pensamento – de preferência, sem a necessidade do uso da maconha para tornar isto possível.
Depois de um texto tão longo, só quero desenhar uma conclusão: a política que vemos hoje em dia é falsária. A verdadeira política é aquela que nos rege, que rege nossas ideias e pensamentos. São várias políticas que geram uma única forma de governar. E essa política resultante de tantas outras é bem mais que voluntária, é coletiva. O ato de governar um sistema ou uma sociedade é voluntário, vem dos valores cidadãos e devidamente intelectuais de cada um – quando digo intelectual, digo que é necessário ter noção de leis, de valores, de direitos, de deveres e de ética.
Enquanto sonho com um mundo assim, um carro de som passa na minha rua.
Em tempo: faculdade de Ciências Políticas? Deixa pra uma próxima vida.