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domingo, 3 de julho de 2011

Uma despedida

Hoje, despeço-me de tudo.

Despeço-me deste mundo vão e frio, caluniador, exagerado e soberbo. Despeço-me deste sentimento fraco e morto, sem sombra, sem carinho, sem noção de certo ou errado. Despeço-me desta cara sofrida, destas lágrimas viciosas, desta estranha mania de chorar por tudo que penso e de pensar em quem não daria um segundo para pensar em mim. Despeço-me deste teclar rápido que jogo nesta pobre máquina, que culpa nenhuma tem dos meus problemas.

Despeço-me dos meus olhares desviados, destas esquisitices, dos meus risos falsos e sem reais motivos. Despeço-me da mentira que carrego nos olhos sem querer, na verdade que escondo e que manipulo, e que vira mentira num piscar de segundos. Despeço-me dos relógios atrasados, das horas marcadas, porém desrespeitadas, deste sofrer extremo que guardo aqui dentro sem a menor necessidade.

Despeço-me desta pessoa insegura que sou, cheia de medos e procurando qualidades, ao invés de assumir certos defeitos. Despeço-me das horas que dediquei aos meus pontos fracos, dos instantes de vaidade que poderiam muito bem ser substituídos por instantes de caridade ou criatividade, ou seja, de qualquer rima de verdade. Despeço-me dos panos mortos que visto, das sequências de reflexos no espelho e da ânsia de boas maneiras que tenho.

Despeço-me das boas maneiras. As maneiras nunca são boas, isso a vida me ensinou quando tinha pouco mais de uma década de vida. Nós nunca seremos bons o bastante, por isso, despeço-me da imagem de perfeição que criei. Despeço-me dos carmas, das máscaras, das inconveniências. Despeço-me dos códigos. Descodificarei tudo, sou agora cria dos meus pensamentos, sejam eles insanos ou não. Que venham ousadias e novas ideias de liberdade, que rebeliões sejam bem-vindas. Despeço-me dos sonhos forjados.

Quando o sono estiver em falta, apelos serão feitos à música ou ao céu, mas nada de expectativas. Elas matam aos poucos. Elas matam muitos. Elas me mataram, e eu tive que nascer de novo, fazendo despedidas, apresentando-me a quem nunca imaginei conhecer. Portanto, despeço-me do medo de sair na rua e ser vista sem maquiagem ou com calças fora de moda. Se é assim que me veem, seja quem for o observador, observado por mim não será. Apenas o que os meus olhos veem será suficiente para abastecer minha alma. Posso colorir meus lábios, enfeitar meus cabelos ou embrulhar meu corpo num belo tecido, mas que fique claro que qualquer ato de cuidado com meu corpo ou aparência será para iluminar meus olhos quando num vidro transparente os tais se perderem.

Minha vida será assim: cada dia será novo. Se as lágrimas vierem, nunca serão contidas, mas também nunca serão mostradas ou citadas numa mesa de bar. Minhas lágrimas serão tão minhas que seu destino será traçado pela fonte da qual jorraram – se molharão o travesseiro ou se colaborarão para a falta de água no planeta. Meus sorrisos serão bem expressados, e sairão quando forem solicitados, sempre com uma senha: sinceridade. Se for de bom grado, se houver graça, se houver alegria, ora, venham e fiquem à vontade, a casa é de vocês. Mas se for algo falso, tão falso quanto notas de três ou baterias de corda, ora, guardados serão dentro da minha boca ou do meu coração.

Nada aqui dentro será desperdiçado, será tudo reaproveitado. Criarei meu conceito de sustentabilidade interna, de segunda chance, de recomeço. O espelho deixará de ser o pôster que minha parede consola. Não terei pôsteres na minha parede, apenas artes expressivas e fontes de cores – talvez fotos de cantores ou gente que me faça rir ou chorar, mas nada além disso, nada além do necessário, nada além do bem vindo. Portanto, despeço-me das idolatrias, dos amores impulsivos, das carências incontáveis e do sofrimento da meia-noite, quando quero uma mão pacífica na minha cintura dizendo que tudo vai melhorar. Não preciso de vozes alheias para que tudo melhore. A melhora está dentro de mim. Ou melhor, nada vai melhorar, simplesmente porque já vai estar bem.

Não preciso de mapas, caras, gestos, olhares, sombras, medos, angústias... O que ou quem me abasteceu um dia não morreu nem foi esquecido, simplesmente passou. Despeço-me deste horrível preconceito com o virar das páginas. Por mais essenciais que elas sejam, os novos capítulos devem existir. Meu novo capítulo estar por vir, eu já virei o que havia de ser virado, agora é tudo novo, de novo, de agora, de hoje em diante, como sempre deveria ter sido.

De hoje em diante, sou a dona do que há em mim. Tudo ao redor é só uma parte, uma amostra grátis. Despeço-me aqui deste meu velho jeito de ser. Minha alma renova-se agora, neste segundo, neste ponto final.

Bem-vinda.

 

#EuAmoEscrever ruth shively

(imagem: Ruth Shively)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Liberdade ditatorial

Enquanto não terminamos o papo sobre equilíbrio e conceito geral de sustentabilidade, posto no B-Desc algo que ainda desperta um monte de interrogaçãozinhas na minha cabeça já não muito equilibrada: liberdade. Eu sei, já tentei falar sobre isso neste blog em algum momento, mas não pude abrir mão da reabertura desse tema quando deparei-me com esta notícia no g1.com:

Por "liberdade", bonecos suecos não têm sexo

É difícil tratar de um assunto tão complicado como liberdade. Porque todos temos nossos próprios conceitos – apesar da padronização que os dominam desde que o mundo é mundo. Tem gente que pensa que ser livre é ser amado, desejado e independente. Outros pensam que liberdade é poder voltar pra casa a partir da meia-noite, enquanto os pais cismam com a chegada do ponteiro no onze – mas isso não é trabalho pra quem vive mudando de pensamento como eu.

O que mais me “mordeu” nessa manchete foi o uso da palavra “liberdade”, isso já ficou bem claro. Mas não foi o tipo de pensamento que me atordoou… Talvez até tenha sido, mas de uma forma mais explicada. O que realmente chamou e chama minha atenção é o fato de que, de uma forma ou outra, estamos sendo obrigados a “marchar” (e o uso desse verbo foi bem proposital) nossas atitudes e mudar por causa dos outros. Sim, os “de mente aberta” aparentam uma gana meio assustadora quando se empolgam para expor suas ideias – o que me faz pensar que quem tem a mente aberta demais deixa entrar poeira e escangalha o que há lá dentro. Analisando tudo isso, acabo fazendo meio que uma linha do tempo: há trinta anos, os que se preocupavam com o sentido real da liberdade eram chamados de loucos pra baixo; há vinte anos, os loucos tornaram-se pessoas respeitadas a ponto de imaginarem novas teorias e filosofias, mas aí já era outro contexto, bem distante desse aqui; há dez anos, no auge do “popular”, dizíamos que detestávamos rótulos, sendo que hora ou outra classificávamos alguém como “assim ou assado”; há cinco anos resolvemos nos entregar de vez à moda das diferenças, mas com certo medo, como o governo ocupando uma favela e expulsando os bandidos naquele clima de guerra; e hoje, já tão “vividos” (até parece…) e embalados pelo hino de “libertação” do Ricky Martin, passamos a achar que tudo e todos devem ser mudados para que o mundo mude e… É, como se mudanças de opiniões ou abolição de estereótipos fosse, por exemplo, salvar a África da fome.

Ver o mundo com olhos abertos é obrigação, meus caros. Mas há quem diga que os nossos olhos estão fechados demais – calma, não é nenhuma teoria da conspiração ou Ceita religiosa, só tô exemplificando, não façam nada contra mim, por favor. A gente nasce com macacãozinho rosa ou azul, com quarto de borboletinhas ou aviõezinhos, com batons rosa ou barulhos que imitam a velocidade disparada dos carros, com amigas para falar de homens ou amigos para falar de futebol… Tudo bem, é tudo muito regulamentadinho, mas se esse era o problema, já passou. Tá todo mundo solto, todo mundo pode ser solto, pode pensar e agir como quiser: se a menina que nasceu com o destino de herdar as Barbies da mãe acordar num belo dia dizendo que vê a Barbie com outros olhos, uau, ela é só mais uma, é feliz com sua vida e o que interessa mesmo é se ela não faz mal a ninguém. Mas é aqui que está o problema: nunca nos livraremos dos estereótipos. Na sexualidade, na religião, na raça… E muito menos na anatomia! Do jeito que anda a coisa, não vai demorar muito para condenarem (e digo: todos!) suas próprias características genéticas, suas fitinhas de DNA… E de quem será a culpa pela “imposição de rótulos”?

A sensação que dá é que toda a liberdade que sonhamos,  individual e proporcionadora de felicidade, virou tronco de escravidão. Como se nós mesmos, tão maravilhados com o mundo das aceitações, trocássemos as bolas e disséssemos que a liberdade tem apenas uma face… Êpa, isso me cheira à tirania, coisas do tipo. A liberdade deve estar intacta na cabeça e na listinha de desejos de cada um, para que esse “cada um” faça o favor de buscar seu objetivo. Cada um nasce de um jeito único, com um caráter único e uma cabeça que muda de acordo com o mundo. Podemos ser o que quiser, e depois disso o máximo que podemos fazer é nos aceitarmos e aceitar quem nos cerca. Mas existem certos limites que, por mais que possamos mudar de modo artificial e em pleno frio de laboratório, vai ser um limite que vai nos determinar. E se vivermos sem esses tais limites, ora, não teremos a menor chance de deixarmos nosso caráter fluir. Por mais que sejamos frutos de nós mesmos e de nossas próprias escolhas, ainda temos um mundo inteiro para nos dar as coordenadas – e se não concordarmos, é só modificarmos a rota, e isso deixará a expedição mais interessante e encantadora… Mas cabe ao caráter e a cabeça de cada um.

Ah, e sobre esse enxame de marchas sem sentido visível a olho nu, deixo apenas uma sugestão: leia um livro, procure mais, encontre-se. Encontrou-se? Agora trata de seguir seu caminho e deixar que os outros façam o mesmo, e guarde suas placas de manifestos para motivos realmente cabeludos, como a extinção da onça pintada ou a árvore centenária da sua rua que as autoridades querem podar. De resto, manifeste sua própria identidade para si mesmo, e já está de bom tamanho… E se quer ser respeitado, é só pedir. Mas não cause tumulto por algo que, graças ao mundo de hoje, pode ser resolvido com vários outros recursos. E para estes sempre ficará meu digníssimo respeito.

aleix gordo hostau Aleix Gordo Houstau

#Descodifique-se!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sustentar-se – parte 1

É dura a vida de bailarina, já dizia alguma música do tempo das nossas bisavós. Andar nas pontas dos pés, flutuar (ou fingir que flutua), desviar dos calos enquanto tatua no ar seu sorriso mais sofrido. Poético, não é? Espere só até chegar à última estrofe, quando os versos já estão tortos de tão rigidamente equilibrados – ou de tão disfarçados de equilibrados.

Não, a pretensão não é descrever as memórias de uma velha dançarina – até porque não sou velha nem dançarina e muito menos os dois. Se existe alguma pretensão escondida no meio dessas letrinhas que pesam na minha vista, é bem clara: falar sobre o equilíbrio. E olhe pra mim – faça melhor, olhe para si mesmo e veja: um ser humano falando sobre equilíbrio é tarefa digna de Nobel. Mas a tentativa, por mais frustrada – e agressiva – que seja, é sempre válida.

Equilíbrio é algo que me lembra a perfeição no seu sentido mais humano. Como perfeição pode ser humana? Explica-se na tal da lembrança: fingir-se bem, porta-se como inatingível e esconder, por trás de uma doce feição, um mar de problemas e defeitos. A humanidade tem tudo para ser equilibrada, para andar em linha reta e esticar o corpo como se fizesse ioga; mas os pescoços sempre se entortarão e os músculos sempre se contrairão, faz parte do show. Por mais que nos digam o que devemos fazer por simples questões de boa convivência, o “certo” nos parece incômodo demais; exigimos novidades. E exemplifico, da forma menos exemplificável possível, essa questão de sustentabilidade. É usando de todo um grau de sinceridade que pergunto: quem aí não pensa duas vezes antes de soltar um “majestoso” bocejo quando ouve a palavra “sustentabilidade”? Que os “verdes” me perdoem, mas a ideia de andar na linha não é tão interessante como devia ser. Lembra ecologia, amar florestas, abraçar árvores, recolher um lixo que não foi só você quem gerou, procurar novas fontes geradoras de coisas que precisamos no dia-a-dia mas cismamos em esquecer, não comer carne… Epa, e aquela picanha linda que a churrascaria cisma em mostrar? Perdão, mas não dá pra ser totalmente certo quando o errado já virou a base de tudo. E voltando ao caso da bailarina, os pés já se acostumaram com os calos, por mais dolorosos que eles sejam.

Sustentar-se e ser sustentado pelo mundo é uma ideia fascinante. Mas o contexto pobre que a sociedade “padronizada” criou desmancha o fascínio quando coloca um verdezinho no meio. Nos meus quatro anos de vida, minha mente relacionava natureza com pessoas hippies antes de pensar em praias ou matagais – nada contra os hippies, se não fosse por Woodstok a música que ouvimos hoje seria uma boa porcaria. Mas já nascemos num sistema burguês que cria suas próprias noções de certo e errado e que acaba interceptando as noções reais da humanidade – ou seja, nascemos em algo que se criou e que não aceita o que veio antes de tudo. E toda forma de sustentabilidade – seja ela política, econômica ou ambiental, será sempre remetida à vaga ideia do “politicamente correto”, o que já afirmei ser chato e recusável.

Torno a dizer: ser certo é ser chato para o mundo em que vivemos. Então, devemos começar a pensar em novas formas de continuar vivendo e de criar novas bases pro que chamamos de sobrevivência. É errado, é “mais gostoso”, é interessante, ou seja, gostamos de burlar regras. Mas é errado. A consequência é fatal, e não foi nenhum fanático pelo fim do mundo que disse. Ou mudamos ou esperamos ser mudados drasticamente. E nesse caso, voz ativa é melhor que passiva. A velha ideia da bailarina e seus calos… Pode torná-la mais forte e dar um ar mais doce, até o dia em que os calos provocam a perda dos pés – ou a perda da cabeça, que acaba soltando o cisne negro, e isso é algo cinematográfico demais para a nossa conversa. Não digo que devemos parar de comer carne, mas podíamos rever certas ações. Por questão de princípios, de saúde e de amadurecimento. Se ser sustentável é chato, então estar de pé é chato, e aí concluo: viver é um saco.

Não é questão de ser colorido, é só andar com a mente e os olhos bem mais abertos; pra que se veja o mundo com mais clareza, fazendo com que se tire o maior proveito de tudo a nossa volta.

É isso aí, mas o papo só está começando.

 

#Descodifique-se.

sábado, 21 de maio de 2011

Recomeço e retrocesso

Olho esse título e incorporo um código de barras, é bem verdade. Como diz o velho e bom Hebert, “do muito que li e do pouco que sei”, já devo ter ouvido umas mil teses sobre recomeços e mudanças radicais, das mais variadas possíveis. Ouvi dizer que uma viagem de pelo menos seis meses pela Europa revigora qualquer pessoa. Ouvi dizer também que um corte de cabelo ou uma simples mudança na cor já faz grande diferença e estimula a transformação de dentro pra fora ou vice-versa. Compras, caminhão de mudança, cidade nova, gente nova…

Mas aí pintou uma dúvida nessa “assimilação” que eu tentei fazer – enfatizo o verbo. Pensei: “o que move nossas mudanças?”, e aquela velha teoria de que “tudo é uma questão de autoestima” não colou. Continuei pensando, sozinha, sem direito à consulta, seja para quem fosse. Uma ou duas horas depois, surge a conclusão: só existe um verbo que estimula esse tal “recomeço” que tanto insistimos em citar, é o verbo cair. Depois de um bom tombo, me diz, quem não implora por um descanso e por uma nova chance? Porque recomeçar é isso: é o que vem depois da queda, o pós-curativo, a fase que sucede a terapia e essa é a teoria que criamos porque nos parece a mais cabível. É a tal segunda ou terceira chance, aquele ar que a gente respira e acha que é totalmente diferente de tudo que já vimos antes, bá. E nesse novo capítulo fica a dica: “Não repita os mesmos erros!”. Uns andam na linha, acuados e disciplinados. Outros ficam tão felizes que pensam que a vida é isso, várias quedas e vários recomeços. Tá aí, a segunda linha de pensamento até que não é de se jogar fora... Resolvi estuda-la com cuidado.

Continuei pensando: você está lá, forte, seguro, equilibrado e imbatível. Está mais bonito, pronto pra outra, seja o que Deus quiser. O primeiro tempo é aquela novidade, aquele instante de espanto misturado com fascinação. Não para de andar, segue na estrada sempre pensando positivo. E vem o segundo tempo com experiências mágicas e deslumbrantes, daquelas que provocam brilho nos olhos de qualquer “transformado” por aí. Você conjuga novos verbos – chega a conjugar antigos, mas com outras configurações, se me compreendem. Você não desiste. Está afoito, surpreende-se consigo mesmo. E se sente mais seguro que alvo de assobio de pedreiro, misturando tudo e sem se arrepender de suas escolhas, cometendo menos erros, mas… Volta a fita, por favor. Não entendi esse conceito de recomeço; substituir velhos códigos por novos e dar a desculpa de que “minha vida é simplificada”? Demorei até pegar o espírito da coisa.

E então me lembrei de um fator essencial: estava pensando de um jeito perfeito demais, e se quero pensar nesses tais “mistérios” que todos nós temos, devo passar bem longe da perfeição, o que nunca vai ser difícil. Tem uma hora em que toda felicidade imaginária de um recomeço cai por terra. O equilíbrio vai embora, aquela força se esvai pelos dedos, tudo que você “pregou” nas suas paredes é abalado por um terrível terremoto. Calma, não falo de fenômenos naturais: trata-se do retrocesso, o maior inimigo do recomeço no meu segundo round de pensamento intensivo. É voltar à estaca zero, tremendo como quem vai cair de novo. Esse aí cobrou demais da minha mente.

Admitamos que regredir é fácil, mas regredir descaradamente é alucinante. Primeiro: não assumimos que ainda somos falíveis; segundo: a fase da queda é de péssimas lembranças, então nos auto alertamos: não ultrapasse!; Terceiro: você treme. Você já tremeu, está perto de cair, não adianta! E então se segura no primeiro poste, até que o poste cai com você.

Você retrocedeu. Você caiu de novo.

E aí? Recomeçar, fazer de novo, “tenho disposição”, precisa mesmo disso? Será que é o certo? Será que esse tal destino que a novela da tarde cisma em citar a todo instante existe e está botando as manguinhas de fora alertando a mudar sua opinião? Droga, essa história de retrocesso dá um medo danado…

Entre recomeçar e retroceder existe uma longa e surpreendente estrada. Você pode encontrar novos caminhos, novos ares, novas histórias… Mas o recomeço é importante e exclusivo demais para acontecer um milhão de vezes. Ele é único demais para ser confundido com revanche. E o retrocesso pode ser a “fada-madrinha” disfarçada de bicho de sete cabeças que só quer dizer uma coisa: quedas existem, mas o que vem depois delas não precisa ser necessariamente o recomeço, e sim, um novo parágrafo para uma história que não pode mudar. É isso: histórias não mudam, apenas acabam, começam ou caminham de outra maneira. Você recomeça todo dia? Refaz suas memórias, seus caminhos, seus defeitos ou suas qualidades… Tudo numa única manhã? Ou você apenas acorda, sem esperanças, apenas com olhos atentos e sentidos apurados? Uau, adoro responder perguntas com as próprias perguntas.

Nós recomeçamos sim, porque somos humanos e temos todos os verbos em nossas mãos. Mas quando retrocedemos? Quando alguém ou alguma coisa da folha anterior insiste em participar da folha seguinte.

Acho que concluí esse pensamento da forma mais “vivida” possível. E isso não é motivo de orgulho.

vlasilav

Vlasilav.

 

#Descodifique-se.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Acinzentamento

Vida real – sem carnaval, fantasia ou coisa do tipo. Tempo marcado, agendas lotadas – ou vazias, de vez em quando – palavras exatas, política da “boa vizinhança”… Escrever sobre a realidade é bem difícil. Não é como nos tempos Machadinos, em que a cidade passava por uma revolução poética-sócio-cultural, onde todos se moviam concentrados em sentimentos distintos e encantadores – não desmerecendo os sentimentos humanos de hoje em dia. Hoje é tudo mais colorido, será?, ou só as cores dos muros pichados são fortes e alegres? Mil oitocentos e alguns números e tudo bem, a vida era meio oculta e reservada, mas havia poesia, havia tempo, havia até mais pureza. Os hábitos poderiam até não serem muito legais – palavras de alguém de outra geração – mas não podemos negar a forma como a opinião era exposta em tal época, como a vida era mais dependente de opiniões e pensamentos – mesmo com padrões tão duros para nós, habitantes dos anos dois mil. A questão não era qualidade de vida – até era, mas não é a questão deste texto – era a qualidade da opinião, do sentimento e da forma como ele era exposto. Definitivamente, a palavra “exposição” perdeu toda o seu real sentido nesses dias que vivemos. O mundo – como já disse, mesmo parecendo ser tão colorido, esconde um cinza estranho e desconexo por trás de suas janelas. É tudo automático, ligado na tomada até dar curto-circuito… Quem disse que dá curto-circuito? A liberdade é citada de outra forma, vista apenas como “ir e vir”. Não é só isso, sabemos disso… Nem todos sabem. Está aí um pecado deste mondo muderno. Nem falarei dos recursos que nos movem: sim, todas essas geringonças da informática e seus parentes demoliram barreiras antigas e teceram algumas outras desnecessárias (ok, não mais falarei sobre o que as revistas e os psicólogos insistem em dizer). Enquanto se pensava em viver de forma igual e satisfatória para todos os lados, sentidos e direções, hoje se pensa em coisas, digamos, “bizarras”. A miséria ainda existe e tende a aumentar, mas pelo menos descobrimos que não existem marcianos em Marte – saímos no lucro ou não?

Posso estar errada em fazer esse tipo de comparação, mas depois me acerto com a Nossa Senhora das Palavras Desenfreadas. A ideia das “cores” de cada época me tentou: e pensar que nossas mentes estão beges como os vestidos das senhoras dos anos vinte… Poucos são os ousados que inovam a vida com pensamentos apaixonantes e realmente fundamentais – digo “poucos” em relação à quantidade de pessoas que esse mundão carrega nas costas sem dar um pio. Quem se atreve a dizer o que ainda não foi dito? Quem já pensou em descodificar o mundo? Quem quer pintar bem mais que a cara e faixas para políticos que nada fazem além de humilhar nossa nação? Quem aí já pensou em mudar um pouquinho que seja a forma como vê o mundo?

Ah, se Machado fosse vivo… Quem ele seria? A importante faceta de escritor fabuloso que conhecemos… Ou um mendigo que diz frases sábias como “gentileza gera gentileza”? Ai, chega de perguntas. Elas cansam, elas entopem o cérebro delas mesmas… E no fim, lá no fundo falso ou verdadeiro, elas nos salvam e sim, “giram nossa manivela”. Abrir a mente virou opção, alternativa, quem quiser que abra. Não devemos culpar ninguém por não abrirmos as nossas, ora… Democracia, minha gente! A última revolução de cores que eu me lembro no momento.

Estamos aí… Estagnados. Uns se movem, outros não saem da zona de conforto. Vai da cabeça de cada um. Quem diria… Excesso de liberdade atrapalha em certos pontos – da liberdade que nós criamos. A verdadeira liberdade ainda está intacta, esperando alguém ergue-la como uma tocha. Só nos resta “curtir” o que ainda nos resta, porque é assim que vivemos: pensando no que será a sobra de amanhã.

 

Nathalie Gonçalves.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Carnaval no ano inteiro

Começou no quinto ou sexto dia da semana de fevereiro ou março. Todos a postos, naquele clima previsível de “energia e felicidade”. Mil cores, mil roupas, mil máscaras, mil convites para festividades e afins, mil loucuras para tão pouco tempo. Euforia de folião é algo incontestável.

Aí as ruas ficam cheias de gente. O asfalto vira passarela – isso não é verso clichê de samba , é fato que ninguém desmente. O litoral vira festa, as ondas do mar afundam num colapso nervoso ao se depararem com um mar de gente ensandecida lutando para invadi-las. Na cidade, o trânsito para, as luzes gritam, o ar fica lotado de si mesmo – ninguém entende isso, mas é exatamente assim que ele se define. Hinos e louvores aos céus, mas nada de igreja; a religião do momento é “ser feliz”, na reza pede-se que a festa dure a vida toda. Plumas, paetês, muito tecido junto, mas bem pouco num corpo só. Caras pintadas… Estamos numa revolução? Não, isso dá muito trabalho, a ordem é não ter nada na cabeça além dos planos para o programa da noite ou do dia seguinte. Colombinas, herois, pássaros, frutas, travestis, ilusões de ótica. Esse é o início do ano. O tal do Carnaval.

- E se ele desse uma volta pelos doze meses do ano?

Vamos lá. Chegou abril. Já começa no dia da mentira – só para estrear aquele já tão famoso baile de comemorações inúteis que o povo inventa com intuitos desconhecidos pelos antropólogos e “chatólogos” de plantão. Preparação para a Páscoa… Hora de renascer oficialmente e mostrar que você virou fantoche da “alegria inusitada”. Alalaô… Que frio é esse? É o Outono mostrando suas garras nada calorosas. Mas folião de ano inteiro não se cansa; cobre a pança e dança até não ter “até”.  Maio, você chegou! Dia do trabalho, mês das mães, dos casamentos, do coração… É, folião também tem sentimentos, ou pensa que é só perna para sustentar o corpo e mão para segurar as latas de cerveja? Folião que é folião mexe os músculos da boca, se apaixona por dez segundos e rapidamente já virou a página. Esse coração de carnaval é engraçado… Junho. Todo mundo pulando fogueira dançando axé! Olha, lá vem o trio elétrico no meio do temporal! Folião de verdade acredita na mentira da cobra, e acaba chamando a coitada para dançar com ele no bloco dos atrasados. Julho? Férias. Tudo que um alegre coringa pediu a Deus. Bariloche? Rio Grande do Sul? Que nada, vamos à Bahia! A verdade é que o Inverno inteiro é quente demais para um felizardo filho do carnaval, afoito com a “harmonia” dos ritmos mais batidos e das letras mais repetitivas do mundo. O calor seria humano, imaginário, coisa da cabeça. É, seria a única coisa na cabeça de um bom folião – ô palavrinha que não deixa de ser dita!

Agosto e Setembro são coisas de Primavera. Flores, amores, sabores e cores e tudos “ores”… Rapaz, lá está o Carnaval de novo! Os jardins viram escolas de samba, o pólen das flores vira confete e serpentina, ao invés do odor nada agradável das axilas dos que imitam pipoca, um doce aroma molhado de campo verde e ensolarado. A tristeza agostina não tem vez! Dali felicidade, dali boas vibrações, dali alegria… E outubro tá aí! Sabe aquela seriedade de eleição, de bruxa ou de outros rótulos que me fogem da memória? Tudo isso caiu por terra no Carnaval do ano inteiro, meu rei! É tudo riso, alegria, simpatia… Sem mistério! Novembro? Caos em shopping para comprar os presentes de Natal? “Ó xente”, é o “bloco dos desesperados”, “acadêmicos dos apavorados”, mas tudo sambando e soltando brilho! Todo mundo com a sacolinha na mão, coçando o bolso e requebrando, vamos lá… Dezembro? Jesus Cristo é homenageado por alguma escola de samba e ganha “nota dez” em todos os quesitos. Só no batuque, só na felicidade… Problemas de família na hora da Ceia? O sogro critica o genro, a cunhada faz fofoca, a amante foi descoberta? Que isso, minha gente, pensamento positivo! Vamos gastar, estouras limites… Fica tudo pra depois do carnaval, e carnaval de folião de verdade nunca acaba! Enchemos as areias de Copacabana de gente – e xixi, claro – e veremos os fogos de artiífico bailarem perto das nuvens, sabendo que amanhã tem bloco de rua ou carnaval de famoso. Janeiro está aí, verão torrando, tudo de novo, disco arranhado… Nada muda, meu bem. As fantasias são as mesmas? Depende de quem as veste!

É, ainda bem que toda essa loucura dura pouco. Nada melhor do que ter a chance de mostrar-se realmente, sem delongas, sem rostos paralisados, sem marchinhas ou sentimentos iguais. Eternamente gratos.

Nathalie Gonçalves.

 

* No post anterior, usei a palavra “teorótico”, mas esqueci de citar o “inventor” desse termo. Pedro Henrique Marques, meu primo, é o responsável pela palavra. Perdão, Pedro! Seus créditos estão todos aqui!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Passado, futuro, passado…

O futuro… Ele me dá medo. Pensar que amanhã será diferente, que preciso planejar, que minhas ideias precisam passar por transformações radicais… Não gosto dessa sensação. Não gosto desse risco. Não agora. Não neste parágrafo. Não nesta linha.

Sonhar? Todo mundo sonha. Todo mundo quer alguma coisa. Todo mundo almeja algum destino bonito, com flores e amores e doces e outras idiotices indispensáveis. Um quer mais que o outro, ou quer o mesmo. Quer a felicidade, quer a justiça para a perda, quer o sabor da vitória… Mas ninguém tem medo de dar errado, porque sabe o que quer, porque acha que o desejo é invencivelmente perfeito e inquestionável. Mas as vontades mudam, os gostos mudam, a vida muda… Ai, os tempos mudam. As horas passam, meu Deus. Não quero que leiam meu futuro. Só quando eu morrer, aí sim vale a pena ter sua história em linhas. Não penso em coisas fáceis. Nada de holofotes ou autógrafos – se eles vierem, pura consequência. Quero mesmo é… Ah, sempre me perco no que quero. Por ser muita coisa, por ser tão simples e ao mesmo tempo tão difícil chegar aonde quero.

No fim das contas, nunca estamos satisfeitos. Mas sempre esquecemos que é o fim, que as contas não nascem de novo. Um dia, quando nosso presente for o futuro de hoje, olharemos o passado e teremos uma certeza: tudo muda, mas sempre somos os mesmos. Sempre há um fundo falso dentro de cada um, como um cofre. Não é fácil acessá-lo, é uma senha tão longa… Nossa linguagem mudará, nossas concepções… Mas seremos inquietos e infantis como antigamente. Nada mudará de verdade. O futuro vai nos dizer isso. Provas virão, questões complicadas, vestibulares, empregos sufocantes, relações incompreensíveis, medos, angústias, aflições, dívidas… Adultos seremos, com mentes pobres de esperança. Mas envelheceremos mais um pouco, e a criança chata ainda estará viva.

O futuro vira presente ou passado. O presente vira passado. E o passado… Esse não morre nem muda. É sempre o mesmo. De repente, meu medo do futuro foi embora. Mas ele ficou no passado. E se lá ele está, é porque não morreu, simplesmente foi congelado.

 

Descodificada.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Escrever

Escrever é muito difícil, meus caros. Escrever sobre qualquer coisa pede bem mais que “traquejo com as palavras”. Exige inspiração, respiração, transpiração e muita, muita guerra interna. E quando digo “guerra interna”, quero dizer que devemos lutar contra os nossos próprios conceitos para expor o que sentimos através das letras. É preciso ter coragem, força de vontade, luz e muita, mas muita paciência. Não é uma questão fisícia ou estética. É uma questão mais profunda, mais complicada do que parece. Aliás, a questão não é saber escrever bem: é saber colocar as ideias de forma organizada e iluminada numa folha de papel. Não é coisa para Parnasiano, Poeta ou Novelista. É coisa para gente grande, de mente aberta e cheia de rebeldia. Aliás, o que move a escrita é a rebeldia. Ora, com rebeldia não há contradição: há descodificação, há entendimento, há “acerto de contas”.

Escrever é para todos, mas por ser algo tão universal, torna-se muito exigente. O universo é exigente por ser extenso e cheio de histórias. Escrever sua própria história requer suor e profundidade. Não requer palavreado difícil, nem mesmo “luz própria”. Requer firmeza, certeza e verdade. Requer liberdade. Muita liberdade.

Escrever é isso. Não é preciso ter marca, estilo ou selo de autenticidade. Basta sentir e deixar que os códigos façam o seu trabalho. Quem descodifica? Ah, isso é trabalho para o coração. Essa é  a verdade.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O nada

Nada a perceber

Nada a entender

Nada a declarar

Nada a constatar

Acreditar no que não é nada

E nada ter, nada sentir

Querer-se dar, querer-se ver

E nada saber, por nada decidir

Nada a comentar, nada a questionar

Pois o nada aqu vive, por ser nada, por ser sombra

Por ser neutro demais

E nada mais, nada se encontra

Nada se espera do que nada se quer

Nada se sonha com o tudo que se planeja

Nada é digno de ser sentido

Nada é digno, repito, nada tem vergonha

Nada se mostra, nada se esconde

Nada se morre, nada se planta

Nada se colhe, nada se corre,

Nada se move porque nada se canta

Nada se dança por ser e não ser

Nada se julga por não se querer

Nada se esvai pelos dedos forjados

Nada se joga nos precipícios exatos

Nada se muda, nada se ama

Nada se odeia porque nada se sente

E se nada sentisse o que realmente importa

O nada seria agora e o sentir seria o sempre.

       Desc.

Pequenos assassinatos

Matar. Verbo doentio, perigoso, incontestável. Peso pra quem conjuga, nenhuma garantia. E quando digo “nenhuma garantia” sinto cheiro de imortalidade. Todos matam. Moscas, baratas, contas, chances, medos, sonhos, tristezas, histórias, pessoas. Pessoas essas que matamos dentro de nós mesmos. Todos matamos. Matamos por motivos que não são idiotas. Matamos por necessidade, por sofrimento, por esperança… Alguma esperança de que só assim tudo volte para o lugar. Matamos para viver, e no fim das contas ficamos na dúvida: será que matamos por necessidade ou por egoísmo? Uma pergunta que morre sem resposta. Mas não porque nós a matamos. E sim porque ela se cansa de nós.

São pequenos assassinatos que cometemos com a melhor das intenções. São os delitos obscuros que moram em nossas cabeças cheias de icógnitas. “Matar” parece ser o método mais prático, mas não quer dizer que seja o mais eficiente. Por acreditar que podemos melhorar as coisas que estão erradas, por querer acabar com quem acaba conosco. Tentativas fajutas, justificativas piores ainda… Medo. É o que nos move quando matamos para viver. Medo de se arrepender futuramente. Medo de esquecer quem estamos matando – ora, matamos para esquecer, então não queremos matar. Mas matamos mesmo assim.

E no fim das contas, quando achamos que já enterramos quem matamos… Eis que surgem os fantasmas. Não é o arrependimento. Não é fantasia. Não é culpa. É apenas imortalidade, no seu sentido cru e insano. É a nossa punição.

Amor. É o que ainda fica nos fim das contas. É o que modela a raiva, o desespero, a dor. E o que seria de nós sem esses sentimentos? Sabe-se apenas que o mal nunca se arranca pela raiz. Eis que o amor não tem raiz, é tão natural que não precisa de raiz. Amor não é árvore, não é folha caída, não é nada disso. Amor é motivo sem motivo, é sentir com tudo dentro, é chorar sem alento, é ter olhos abertos no vento, é viver sem se importar com o tempo. E matar o amor que há em nós é algo que não existe. Não se mata amor. Não se mata quem é o nosso amor. Simplesmente porque ele volta, e com toda a força. Simplesmente porque quanto dele volta tudo fica mais claro. Porque sem ele não dá pra viver. Porque nós morremos, mas ele não.

domingo, 7 de novembro de 2010

Delírios de domingo

Dia mórbido. Sol de rachar, crianças brincando no quarto, TV alta tocando ora George Michael, ora Michael Bublé. Nada é tão ruim quanto parece... Ora, nada pode ser ruim. Pode? Bom, existe uma hora em que você não sabe de mais nada.
Nada é ruim. Isso se você desconsiderar coisas básicas do ser humano, como a ansiedade, o medo, o arrependimento por coisas tão banais que apelidamos de erro, a culpa, a saudade, uma leve pitada de solidão, uma maior ainda de preguiça... Deve ser isso. Deve? Como assim? Cadê a certeza que tanto se cobra? Cadê a paz na sua cabeça?
Com toda a sinceridade que Deus me deu e que eu devo ter preservado, domingo não é um dia normal. Pelo contrário: é um dia tão enlouquecedor que faz você pensar na sua semana de uma forma quase que autodestrutiva. Um dia cheio de códigos. É assim que defino o domingo. Um dia angustiante, tão estranho que não mais saberei definir tão bem quanto dizer que este é um dia cheio de códigos - e essa falta do que dizer é algo totalmente pertencente ao domingo.
Mas todo domingo tem um lado interno que aborda o que há de mais extremo em nós. Um dia em que nada faz sentido, e os sinais que nos ligam ao mundo são dominados por um famigerado curto-crircuito que danifica nossas mentes de forma absurdamente inexplicável. Um dia em que nos obrigamos a esquecer o que nos provoca dor, mas o tédio sempre faz esse mesmo motivo voltar sem eira nem beira. Um dia virado do avesso com cara de dona de casa competente e bem vestida, mas que sempre esconde tamanha ira lá no fundo do olhar. Um dia onde o nexo resolve tirar férias e deixar seus pobres dependentes sozinhos no mundo e amedrontados por suas próprias sombras. Um dia tão descompensado que é melhor virar a página. Mas quem foi o idiota que comparou um dia com um livro?
E é assim. Uma longa espera que começa na terça-feira, pois a segunda serve de descanso para os que deliraram no domingo. Simplesmente assim.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O amor.

O amor. Bicho desvairado, famigerado, gerado pelas piores sensações humanas e alienígenas. O amor. Cercado pelo desejo, pela dor e pelo prazer em sentir dor. Motivo de lágrimas, perseguido por sorrisos bobos e idiotices que se mostram fundamentais. O amor. Feito de palavras melosas, de verdades torturantes e infamidades que invadem as entranhas como o seu cunhado invade o seu sofá sem a menor piedade. Insensato, cheio de seu próprio vazio, coberto pelo que há de mais singelo e de maior. O amor. Aquele que não se decide, que se enche de si mesmo, que se descobre, que se desdobra, que sufoca, que merece e faz ser merecido, aquele que nasce e desse mesmo nascer torna-se imortal. O amor. Tolice, tortura, domínio, escolha, render-se, castigar-se, insultar-se, viver e nunca morrer. O amor. A face mais real, mais sensata, mais nua, mais natural. O amor descodifica.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sozinha.

É difícil não ter o que dizer. Vivo assim, sem palavras para soltar em linhas ou em voz. Palavras que seriam tão simples que... É difícil dizer qualquer coisa sem lembrar depois e pensar se foi mesmo a melhor coisa a ser dita. Falar não é tão fácil como dizem por aí, e vivo provando isso pra mim mesma há um bom tempo. Ouvir o que não se diz é algo tão raro que chega a ser valioso. E vivo dizendo para mim mesma o que quase ninguém diz pra mim. Se estou certa ou não... Pelo menos tento valorizar meus ouvidos.
Falar, escutar, sentir... às vezes gosto de falar sozinha para escutar minhas verdades e  sentir o que ainda não senti de verdade. Mas nem sempre consigo o que quero. Às vezes não sou o suficiente. Preciso de mais alguém. Preciso de um sonho. Um abraço me cai bem.
E quando digo que seguir sozinha é melhor... Sei que nunca estou sozinha. Ter Deus, ter a mim mesma... Ter alguém por perto, sempre vou ter. Sempre quero ter. A solidão nunca me caiu bem. E nem que eu sequestre um satélite, um ET ou um pôster do Tom Cruise... Sinto que alguém estará por perto. Nem que seja para um singelo abraço.
Sei que não estou sozinha. Sei que não posso estar sozinha. E sei mais ainda que eu quero ficar sozinha de forma alguma.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Não se reprima, não se reprima, não se reprima..."

Nesses últimos dias, tenho andado beeem afastada do blog. É mudança, escola, texto, croqui... Não há quem não aguente. Mas nesse meio-tempo tenho dado de cara com coisas irritantes da vida que eu nunca deixo passar. Coisas como: invasão de privacidade, palavras desnecessárias, propaganda eleitoral, TPM, motivos idiotas para iniciar uma briga, saudade, notícias trágicas (e apavorantes) na TV, motivos gritantes para reclamar da vida... Ah, motivos, motivos, motivos.... Um mais chato que o outro. Certo dia, estava eu "brisando" em algum raro momento de descanso. Eu pensava nos tantos pedidos que faço todas as noites antes de dormir. Pensava nos meus sonhos - virar amiga íntima dos meus ídolos, ser colunista de jornal importante e morar de frente para o mar -, nos meus problemas - quem não tem? -, nas palhaças que ouço todos os dias e no quanto já fiz para alcançar meus objetivos. Aliás, fazendo uma "redução de pedidos", descubro que o que eu quero realmente é o que eu sempre quis desde que saí do casulo: ter uma vida digna, encontrar alguém que me ame de verdade (quem não quer?) e ter uma profissão que auxilie na minha descodificação diária. Tento fugir das minhas próprias comparações de forma exagerada, me descubro exageradamente hiperbólica e extremista. É difícil encontrar um meio-termo em mim... e em qualquer ser humano. E foi nesse momento de enorme reflexão que me vi perdida montado uma lista de dicas para escapar desses meus constantes medos e inseguranças. Minha lista ficou mais ou menos assim:
1) Comer chocolate todos os dias. O mais caro, gostoso e cheiroso que puder. Portanto, trabalhe bastante para comprar infinito número de barras.
2) Ouvir ou ver Vercillo todas as semanas.Trabalhe para conseguir essa proeza, pois Jorginho trabalha para minha felicidade, de algum jeito.
3) Apele para os "anjos". Digo: ídolos. Não da emissora daquele pastor chato, mas do tipo: solano, Grant, Laurie...
4) Esteja com um caderno na mão. xingue quem você quiser naquelas linhas. E declare-se pra quem você quiser nessas mesmas linhas.
5) "Não se reprima, não se reprima..."
De todas essas dicas - sem esquecer da segunda, claro - pensei melhor na quinta. Os menudos ou dominós fizeram muito bem em gravar essa canção - mesmo com uma voz pra lá de esquisita. Essa deve ser a música da minha vida, do meu bem-estar, do meu momento desc. Por isso....
"Canta!
       Dança! (Ui)
            Sem parar!
                tananananana
                          Sobe! Desce! Cooooooomo ninguém!
NÃO CONTROLE MUITO SEUS INSTINTOS PORQUE ISSO NÃO É NATURAL!"

vai dizer que essa música não diz tudo?
E depois disso... Voltei a limpar gavetas. Cantarolando, claro.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Só uma menina.

Era só mais uma menina que um dia acreditou nos filmes que assistiu. Era só uma menina que um dia sorriu por livre e espontânea vontade. Era só uma menina que ouvia atrás da porta, que queria acelerar o ritmo dos ponteiros, que queria atropelar a vida com o caminhão de brinquedo do seu irmão – ou com o conversível da sua Barbie. Era só uma menina que queria ser gente grande, que achava bonito ser gente grande... Ela só queria ser sua própria mãe. Só isso. E nada mais.


Mas ela cresceu. O esperado que nunca foi imaginado aconteceu. O encantamento caiu com as lágrimas que se soltaram dos olhos quando esses viram uma nova imagem no espelho. Aquela menina simplificada tornara-se uma fração de tempo, uma expressão sem simplificação. Tornava-se adulta aquela menina só, uma só menina. Ela se viu na sombra, se encontrou na chuva... E agora chora quando a perguntam se é feliz. A menina morreu. A mulher tomou seu corpo, fez suas tantas alterações nele e se viu em apuros ao lembrar da menina. A adulta agora chora, se vê iludida – ela não quer se ver. Ela não quer viver.

A vida matou a menina? Não. Ela ainda agonia na memória da mulher. Ela ainda chora e pede o colo da mãe. Ela ainda pergunta se já pode sair do castigo. Ela ainda tenta respirar – e luta com toda a força que uma pobre menina pode ter.

domingo, 5 de setembro de 2010

Lua e luz.

Nos mil-tons, nas mil-cores
nas mil-faces que dominam a visão
Na sensação mais extrema entre os meus ganhos e seus horrores
Só resta a luz que engrandece a escuridão
Existe um céu infinito lá em cima
E o meu aqui em baixo, finito de sombras
Querendo iludir as cordas da minha voz
Com palavras açucaradas e redondas
Chega a lua, impávida como o calor
Seu brilho acalma a noite, abafa qualquer tipo de dor
Esse mesmo brilho junta os cacos do equilíbrio
Sua aquarela acelera o ritmo do coração
Sua luz faz a luz do sol parecer tão pequena...
E se estende por toda a noite essa cruel comparação
Seu branco tira a voz do choro ou do riso
Ao som do som do suspiro; vazio cheio de sim mesmo
Lacunas abertas se fazem vítimas de um desejo sombrio
Entre o fechar dos olhos e o mexer dos dedos
As mesmas respostas virão amanhã
Na mesma sombra, na mesma luz e seus feixes
Torço pra que chegue logo a manhã
Para que eu possa esperar a lua matar minha longa sede
Sede de um novo luar.

sábado, 28 de agosto de 2010

Poema das cores mortas

Laço que se fez com o piscar dos olhos
Não mais se desfaz por coisa de nada
Nem que um vulcão entre em erupção
Nem que eu me queime com sua larva

Cores que saíram da imensidão
Se tornaram curvas de puro pó
Assim como eu, olhando pro céu
Pensando no dia em que eu me fiz num nó

Cantarolando o rolar das pedras
Me desfazendo no branco violão
Pensando em tudo que quero fazer
Quando encontrar meus pés no chão

Entre a lua e a minha cama
Faz-se um belo punhado de distância
Faz-se o sol em cores de esperança morta
Mas a lua ilumina a mente
E conjuga o cerrar dos meus olhos
Serenando suavemente
O brilho dos sonhos que envolvem seu rosto no meu...

E as cores se perdem
Numa zonza imaginação
Só enxergo o preto e branco
A caminho da escuridão
Só o breu me aparece
Me tentando com atentação
E cobrando uma explicação
Pro meu destino inquieto.
Não me deixe acordar...
Nathalie Gonçalves.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Infância

Dia desses, lembrei da minha infância. Não sei se foi a melhor época da vida, pois muitas ainda estão por vir. Mas aquela foi memorável. Principalmente num mundo onde nem todas as infâncias são memoráveis - algo que chega a me assustar. Lembro de como eu era diferente das outras crianças. Claro, sempre fui risonha e não fechava a matraca, mas eu era madura demais. Mesmo sendo criançona, eu vivia dando lição de moral nos meus colegas de escola. Explicava as matérias, dava conselhos amorosos pras minhas amigas, ficava no sol escrevendo poesia e desenhando as flores mais feias que alguém já ousou desenhar. Não brincava com nenhuma outra criança, meu negócio era ser independente. Pegava a escumadeira da minha vó e ia imitar os calouros do Raul Gil (meu avô sempre viu, automaticamente isso faz parte da minha infância). Reparava nos diálogos adultos para imitá-los nas minhas constantes brincadeiras. Imitava professores, cantores, mocinhas sofredoras, mães desesperadas, vilãs revoltadas, apresentadores egocêntricos, adolescentes inconformados, médicos preocupados, produtores insatisfeitos, jornalistas curiosos... Meu hobby era minha forma de socialização, era quando eu me encontrava com o mundo que via na TV ou na minha frente. Era minha forma de planejar meu futuro, de ousar nos meus pensamentos. Gostava de ter algo na mão: um graveto, uma folha, a famosa escumadeira, um controle remoro, um cabide (assim que minha mãe viu, tirou da minha mão), uma caneta, um telefone velho, um broche... Me escondia num quarto barulhento, numa varanda cheia de mosquitos... Por vezes fui para o banheiro só pra brincar sozinha. Não deixava ninguém ver. Era como um ritual sagrado, uma coisa que só eu entendo. Nem minha mãe via. Meus primos tentavam filmar, já briguei com colegas da escola por causa disso. Decidia qual seria minha mais nova "profissão dos sonhos", meu perfil de esposa, de mulher... Me sentia num lugar mágico. E recusava as bonecas que alguns tios insistiam em me dar, pensando que assim eu seria diferente... Acho que essa "fuga" nas minhas brincadeiras me deixou próxima da família, dos meus ídolos... De mim mesma, por que não?
Tenho lembranças incríveis, daquelas com data e local. Lembro-me das tantas férias que passei no litoral, da espada de Dom Quixote (ou seria São Jorge?) da minha madrinha que entortei numa das minhas brincadeiras, dos meus "ataques de cigana" com minha tia (sempre dizia a mesma coisa e ela chorava), das músicas que sempre cantei (de Chiquititas a Vercillo), dos programas de TV (sexta-feira só era sexta-feira quando tinha "os normais"), dos meus arcos de cabelo espalhados pela casa, dos meus fins de semana na casa da minha tia, dos conselhos que minha mãe me dava e me dá até hoje ("se algum menino chegar perto de você, dê um chute nas partes baixas!"), da minha bisavó e sua sabedoria tamanha, do meu amor pelo mar, do meu amor pelo Hugh Grant e pelo Reynaldo Gianecchini, da minha felicidade quando saía com meus pais e minha madrinha, dos bordados que minha vó me ensinava a fazer, das balas que meu avô deixava na minha mochila, das minha mochila do Harry Potter, dos meus verdadeiros amigos tão diferentes e tão especiais... Ufa!
De todas essas lembranças, fica difícil definir a melhor. Hoje, nas vezes em que me encontro cheia de dúvidas e teorias, penso que era bem mais fácil quando eu era criança. Era só pegar minha escumadeira, fingir que eu era a Cláudia Raia e discutir as queixas que eu sempre ouvia. Foi bem mais que uma "fase fácil" ou especial. Foi o momento em que eu me descobri de verdade, bem mais do que na minha adolescência. Ser uma criança descodificada é algo sobrenatural, perfeito, absoluto, maravilhoso.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Luz.

Todos sabem que o verbo desse blog é DESCODIFICAR. Muita gente ainda me pergunta o motivo desse blog levar esse verbo a sério... Por vezes explico que o meu lema é manter a ideia da simplificação humana, das coisas que nos deixam felizes. E para ser feliz, é preciso ter alguém por perto para que haja um momento perfeito. E na noite do dia 11 de agosto, eu me senti a mais descodificada das criaturas. "Nathalie, foi só um show!". Não, foi bem mais que um show, acreditem. Foi algo que nem eu sei dizer direito o que foi. Só sei que "fez o meu planeta estremecer", que "desarmou meu coração, me deixou zen, me fez perder o chão".
Boa parte dos que me conhecem sabe que um dos meus maiores sonhos foi ir a um show do Jorge Vercillo. Essa grande parte também sabe como sou chata por causa deste homem, afinal de contas são nove anos de "dedicação" ao cara que sempre descodificou minha vida. Dá pra lembrar da primeira vez que o ouvi... Na casa da minha tia, ouvindo "Apesar de Cigano" (e a música nem é dele!), senti que aquele cara era bem mais que uma voz bonita que eu estava ouvindo. Em uma semana, já era fã número um. E foi algo que se estendeu por longos e maravilhosos anos... Uma música pra viajar (não sabia chegar em Arraial do Cabo sem pensar em "contraste", "praia nua" ou "do jeito que for"), outra pra noite (as noites do litoral sempre acionavam "quase" ou "suspense" no meu pensamento), outra pra passar uma tarde entediante na minha casa (qual tarde ensolarada que sobrevive sem "celacanto"?), pras manhãs frias a caminho da escola ("fênix" forever!), pra dançar no meio da sala (ah, "signo de ar"...), pra enxugar as lágrimas ("paralisa com seu olhar..."), pra entender que eu precisava de um namorado ("em órbita há dias por você..."), pra relaxar num dia de sol ou de chuva ("se carece de definição, me sinto leve...")...
Ah, Jorge já batia ponto como descodificador profissional na minha vida. E quem disse que ele não me deu amigos? Fez com que eu e minha mãe ficássemos mais unidas ainda, através de suas canções... Conheci pessoas bacanérrimas, como a Déborah, a Vanessa, a Pri... Por vezes, sua voz me acolheu como um pai, um amigo, um irmão... Nunca me senti sozinha, basta uma canção para que tudo melhore, tudo fique iluminado.
E nessa noite de quarta-feira, quando eu vi aquele homem munido do tradicional violão branco passar pelos refletores azuis... Jurei ser a pessoa mais descodificada do universo. Mesmo com o problema do som no início de "Ciclo", foi lindo ver como seus olhos brilhavam sem cessar. Podem me chamar de idiota por postar esse momento, mas devo garantir que até agora foi a melhor experiência da minha vida. Ctrl+C, Ctrl+V, por favor!
É por isso que digo que esse cara é bem mais que um ídolo. É uma luz, uma fonte de inspiração... Um lucro absurdo de vida e prazer, uma forma de alcançar o infinito... Ah, não sou boa em fazer descrições desse tipo.
E pra imortalizar...

domingo, 8 de agosto de 2010

Hambúrguer, amor e coragem.

Mais uma noite olhando pra TV, com meu pote de sorvete napolitano, minha calça larga e minha meia de pinguim. A noite está fria - minha vó já ousou levantar da cadeira só para fechar a janela. Acaba a novela, a série, o clip, o filme... E a noite segue se transformando em madrugada. Minha mãe ri para o computador, provavelmente ela está ouvindo "this is my song for you...". Meus olhos estão caídos, e disfarço bem com meu tipo "está tudo bem". Mas não está tudo bem. A TV desponta com seu filme mais meloso, romântico e "tosco" que uma emissora pode me oferecer naquele momento. Coçando a mão para buscar um dos tantos episódios de House compactados em CD que são abrigados pelo meu armário, sinto-me presa à porcaria que aquele "tubo infecto" resolve ditar. E me vejo zonza ao ouvir uma frase que fez de mim a pior das S.A. - sonhadoras acordadas (gostaram da sigla? Também adorei.): " o amor não é feito de palavrinhas ridículas, e sim de grandes atitudes". As frases "românticas" sempre fizeram parte de mim - eu vendia cartas de amor na escola e ainda vendo. Mas aquela frase... Tinha algo a ver comigo. Eu pensava em qualquer coisa naquele fim de sábado agostino que me fizesse relaxar e esquecer do que me codifica todas as noites. E quando me deparei com aquela verdade dita por um garoto de 10 anos num simples filme de canal a cabo...Não pude delirar, ou então minha vó morreria de susto. Mas pude entender que a minha vida precisava mudar de qualquer jeito - e não digo mudar a marca do shampoo que uso, mas sim a minha forma de pensar, de agir. Não era o fato de pensar que já tenho 15 anos e preciso descodificar meus tantos e poucos problemas, mas... Minha mente sempre me disse que mudar é preciso. Lá se vão minhas contas de quantas vezes cortei o cabelo, quantos cantores ouvi até constatar que Vercillo era meu predileto, quantos ídolos vieram para que eu descobrisse que Hugh Grant seria sempre o legítimo... Gosto de comparar a velocidade do ritmo da minha vida com o preparo de um macarrão instantâneo. São três minutos para as ideias ferverem, um parente ligar e fazer fofoca do outro, uma música nova tocar no rádio... E a dependência de um tempero para dar gosto, dar vida. Só que o mais difícil é perceber que não dá pra seguir o velho conselho da sua amiga e do Dinho Ouro Pretro: "não olhe pra trás". Você nunca lembra de pegar um garfo na gaveta quando vai pegar o miojo no armário: você precisa voltar para buscá-lo. Reconheço que minhas comparações são as piores possíveis, mas  é a mais pura verdade. Ah se minha vida fosse um rocambole: só tacar o recheio e sair rolando! Eu acho que seria a mais vulgar das criaturas. Prefiro dizer que a Mônica é a musa da minha vida - e quero muito acreditar que vocês entenderam o que eu disse.
Mas voltando à frase... Devo concordar com aquele menino - principalmente na minha situação. Sabe quando uma coisa (quando eu digo "coisa", envolvo pessoa, objeto, animal e lugar. Espero que alguém aqui já tenha jogado Perfil) lá do seu passado te codifica, te compacta, te põe numa cilada mesmo sem lembrar da sua existência? Pedir uma máquina do tempo emprestada não adianta muito. E mesmo que você não precise do passado para manter a distância, mesmo que seja o presente... Coragem podia ser vendida na farmácia, né? Não precisa. Tem uma hora que ela nasce em você de um jeito que nem você imagina, e quando percebe, já se tornou o mais corajoso entre tantos que não te seguem nesse mundo (ou no Twitter, sei lá). E se fosse preciso você lutar por algo que você tem certeza que não vai conseguir? Ah, como a certeza antecipada engana... Pois quando se trata de amor, esse sentimento tão cruel, sonso e pegajoso... Não duvide do que você é capaz.
Depois de inúmeras voltas na minha cabeça, levantei-me e escovei os dentes. Um silêncio me dominou, me mostrou que eu não merecia nem metade da vitória que eu tanto queria. Dizer que o sofrimento existe é a mesma coisa que dizer que você detesta a Lady GaGa: daqui a meia hora tá cantando "Bad Romance". Mas lutar com o sofrimento... A coragem vence se o que você sente for verdadeiro. E não foi Ana Maria Braga quem me disse isso: aprendi "na base da porrada". Demorei a entender que a vida é feita de escolhas, e escolhas são feitas de atitude. Um garotinho idiota teve que me dizer isso por meio de um filme mais idiota ainda, só pra me fazer ver que eu era bem mais estúpida que eles. Era. Pois o sono veio, a reza foi feita, botei minha máscara e fui dormir. Acordei graças ao dia dos pais, que me veio com felicidade dupla: pela minha família e pela minha mudança.
Moral da história? Sentir é bem mais necessário do que pensar. E ter coragem supera esses dois verbinhos. Pois quando se tem coragem, quando se corre o mundo, quando se luta e se sofre na dúvida, quando sua vida é dividida em partículas miscroscópicas... Os Titãs tinham razão quando disseram que a vida é mesmo agora. E hoje sei que tudo o que me descodificará nos próximos dias será a coragem que corre nas minhas veias - e por que não o amor que sinto? Sim, por mais que isso tenha ultrapassado o ponto da breguice e do clichê, amar é algo epidêmico, pandêmico, dominador, invasor, predador, fatal e fundamental. E lembre-se: amor só é amor quando vem num sanduíche: hambúrguer, amor e coragem.
    #Descodifiquem-se!