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domingo, 23 de dezembro de 2012

Tudo clean



É assim: o ano começa, janeiro é lindo, fevereiro também, março nem tanto, abril e maio são a mesma coisa, junho e julho têm um caso extraconjugal, agosto é o mês do desespero, setembro é a barata que agoniza, outubro mostra que há esperanças, novembro é o meio termo... E dezembro, meu bem, é alegria, é amor, é família, é paz, é caloria, é felicidade – e um prototipozinho do inferno em cada rua do planeta, porque perfeição não existe. Mas vamos falar de coisa boa – e meu nome não é Juarez, engraçadinho.
Fala sério. Dezembro é um mês pesado – Jesus nasce e o ano acaba, você perde calorias que nem gastou fritando pastel e rabanada e limpando frango (e recupera o triplo meia hora depois), faz uma decoração bisonha com Papai Noel, duende e todas as outras invenções da mente fértil de Walt Disney (isso se Walt não for o próprio Noel – ai, desculpa, é tudo culpa desse trator travestido de mês)... E pronto. Vamos fazer com os nossos problemas o mesmo que a Leader (“já é natal na Leader” for ever) nos ensina a fazer com nossas contas: deixar para março. Tudo é lindo, é clássico, é emocionante... Vamos combinar: festa de fim de ano é tipo especial do Roberto Carlos: nunca muda, o velho nunca morre, as músicas são as mesmas e ainda sim sua avó chora como criança – enquanto você solta um bocejo gostoso.
Festas de fim de ano são pesadas, cafonas, repletas de naftalina. Não gosto disso. Começo a espirrar.
Gosto de uma coisa mais clean. Como um apartamento que você acabou de comprar e que você faz planos de como ele vai ser, de como vai ficar. Com o tempo, você vai recheando o imóvel; às vezes exagera, às vezes peca pela falta. Mas no fim das contas, está tudo pronto, no estilo “melhor, impossível”. Acho que, no fundo, no fundo, as pessoas não levam essas festas a sério – e acabam celebrando qualquer coisa. Ceia farta, troca de presentes, amigo secreto, calcinha ou cueca colorida, pular sete ondas, trevo na carteira... E aí? Alma lavada? Vida nos eixos? Feliz?
Felicidade. Uma palavra que move filmes vespertinos, novelas idiotas e relacionamentos sem futuro. Alma lavada. Um termo tão extravagante que coça quando a gente usa. Vida nos eixos. Existe isso? Bom, dizem que é mais fácil existir vida em Plutão do que ter uma vida nos eixos.
Tem gente que não acredita no réveillon – ou acredita, mas leva na palhaçada. Virar o ano, o século ou o milênio pode parecer algo idiota... Mas pare pra pensar: virar uma madrugada não é estranho? Imagine só virar trezentas e sessenta e tantas madrugadas? Dá um medo, uma vertigem... Mas quando passa, ah, é tão bom. E é melhor ainda quando você não precisa tomar um Engov para se recuperar. Imagine só o Natal... Renascer. O que é renascer? É matar velhos dogmas, é renovar as filosofias, é se renovar.
Fim de ano não tem nada a ver com listas ou promessas que você não vai cumprir. Pelo contrário. Virar um ano é entender que, para cada grande começo, é preciso um grande fim. É aceitar-se do jeito que se é: fumante, gordo, míope, feio, pobre, rico, estranho, sem graça. É olhar para trás e dizer: eu sobrevivi. E sobreviver, meu caro, tem seu valor.
Por isso, digo não aos padrões, aos sacrifícios perpetuados por apenas uma noite, aos especiais de fim de ano. Digo sim a mim, ao que conquisto e ao que hei de conquistar, ao que veio e ao que virá, ao que vai acabar e vai começar. Digo sim às mudanças, ao tempo que passa, ao que fica e ao que continua comigo. E o resto é resto. Puro e simplesmente.
Quero uma vida clean, uma zona zen, coisas boas – e algumas ruins, porque nem tudo que é bom dura pouco. Quero uma vida plena, imensa, sinuosa, dessas de admirar da janela e dizer: caramba, que gostosa.  Quero o que sei que posso e que não posso ter – e que me venha tudo, tudo mesmo. Eu arrumo nas minhas estantes, eu penduro nas minhas paredes brancas. Prometo contrastar os acontecimentos com uma paz chata de tão bonita.  
Quer dizer... Não prometo nada. 
 (Ouça New year's day, U2)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A tristeza e seu remédio



Escrever em cadernos é gratificante. Além de testar o impacto da sua letra sob seus olhos, é maravilhosa a sensação de pegar numa caneta e desenhar a palavra num papel, arquitetar seu poder, fazê-la viva. Mas, infelizmente, não é isso que me traz aqui.
É chato sentir-se de mal com o mundo, até consigo mesmo. Culpemos as tolices da fase adolescente-quase-adulto, o fato de sermos obrigados a aceitar os dias bons e ruins ou simplesmente os hormônios alterados pelo fatídico período mensal que é capaz de enlouquecer qualquer criatura provida de útero – tentei ser delicada. Mas por que associar uma tristeza tida como momentânea à deliciosa sensação oferecida pela escrita à mão?
Não sei de onde tirei a resposta para essa pergunta... Mas creio que existem poucos remédios para a tristeza, a indisposição, o caos interno – chame como quiser. Talvez você ache que sou louca – que seja, já que não se pode lutar contra os rótulos, melhor juntar-se a eles.
Um dentista me disse nessa semana que o remédio ajuda a aliviar a dor, mas não resolve o problema – será que ele previu a publicação desse post? Bom, acho que concordo. Mas é aquela velha história: pode não ter cura, mas tem tratamento. E tratamento pra mim é alívio – ou, em termos um pouco mais sofisticados, qualidade de vida. Hoje sinto-me um caco de vidro altamente cortante, capaz de causar uma hemorragia em quem ousar encostar em mim. Mas amanhã posso sorrir como uma mãe com cabelos lindamente alisados e suéter neutro num comercial de margarina feliz da vida por passar a tal margarina para o marido passar no pão... Ora, quem poderá prever como será o amanhã? Talvez o nosso amigo dentista, claro, se seu poder for confirmado.
Antes que pare a leitura para desfazer os nós nos neurônios, peço que mantenha seus olhos aqui, fixos, sem piscar.
Quando citei a historinha de escrever com a mão, de desenhar a palavra e bla bla blá, preciso dizer que cada palavra referente a esse assunto saiu livre e instantaneamente, como um miojo já temperado. Sério, saiu assim, sem eira nem beira, uma frase brincando de fazer sentido. Mas acho que já era meu remédio chegando... Bastou ver minha letra invadindo o papel como se eu fosse uma espécie de Chico Xavier Full Version que as coisas melhoraram, abri mais os olhos, me senti mais confortável no sofá. E quando reparei que estava parindo um texto de parto normal, ou seja, eu estava usando todas as funções do meu corpo para gerar uma vida (olha o respeito, por favor), senti que até a tristeza pode ser útil.
Escrever é o meu remédio. Mais do que ouvi as canções que ouço compulsivamente, mais do que me sentir num clip do Jamiroquai (calma, “galera”, não uso drogas), mais do que assistir um filme com Wagner Moura e imaginá-lo como meu cônjuge num casamento realmente perfeito. Escrever é o tratamento que a vida me prescreveu para que eu sobreviva com dignidade à sua instabilidade. Pode ser que tudo piore ou melhore hoje ou amanhã, mas eu sei que vai passar, e vai voltar, e vai passar de novo...
Creio que cada “organismo” tenha seu próprio remédio. Basta descobri-lo – mas antes, é preciso entender que a felicidade não é um estado de espírito ou uma animação divertidíssima da Disney. A felicidade é algo tão complexo que só você tendo uma overdose do seu remédio pra entender.
É, acho que já me sinto um pouco melhor.


"Assim, em plena floresta de exclamações, vai-se tocando a vida pra frente."
Carlos Drummond de Andrade


(Ouça Virginia Moon, Norah Jones e David Grohl)







(A prova viva de que eu escrevi tudo à mão)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Descodificando o amor virtual

Foi assim: pouco antes de desligar o notebook, entrei no Facebook (viciadamente) e deparei-me com algo que tem sido frequente nesta redezinha em que mais nada me abisma. Mas é que fiquei tão enjoada e descabelada que precisei compartilhar isso com vocês, caros leitores brasileiros, americanos, africanos, europeus e de todo o mundo - Deus salve o Google Tradutor.
Alianças de noivado, compromisso, bla bla blá. Gente falando demais, se amando demais, dedicando canções, fazendo corações com a mão, declarando-se altamente (e perigosamente) apaixonada... Espera aí que eu vou dar uma vomitada e já volto.
O amor virtual é um dos amores mais falsos que há - e essa é uma das certezas que eu nunca vou deixar de acreditar, mesmo quando um sujeito aparecer em minha vida e me fazer amar loucamente. Aliás, o Facebook me fez mudar de opinião sobre algo que sempre acreditei estupidamente: eu pensava que o amor era o tipo de sentimento que devia ser gritado, compartilhado, tatuado na testa, fincado no corpo, que devia parar o mundo só por ser amor, por ser algo verdadeiro, vindo das entranhas do indivíduo que o sente. Deus, como eu estava errada.
Graças à invenção do senhor Zuckerberg, do Saverin e daqueles gêmeos lindos que aparecem no filme, percebi que o amor virtual é algo tão frio quanto um congelador (perdão pela péssima comparação). O amor que você precisa gritar para os outros não é amor, é vaidade - e se você quer ser vaidoso ou vaidosa, é pra isso que existem espelho e maquiagem da Avon. O amor que você precisa dizer que sente não é amor, é frescura, nem chega a ser faísca. O amor que você precisa provar a todo instante por meio de invasões à conta do parceiro(a) não é amor, é possessão e falta do que fazer.
Bom, você deve estar se perguntando: por que falar de um vírus que só trabalha no colegial? Primeiro: essa parada de "colegial" não existe mais; segundo: essa praga desse amor virtual tá pegando gente que tem idade pra ser avô.
O elemento "carência" é uma merda. É uma espécie de gás hidrogênio, de nitrogênio ou de alguma substância explosiva. Altera os neurônios, os nervos, os órgãos e todo o corpo. A carência leva você a fazer coisas que podem deteriorar sua imagem (não só aquela que você quer mostrar aos outros, mas também a que você encontra no espelho e que faz você pensar que está horrível): você diz coisas ridículas, publica imagens do "Rindo no Face", publica letras de canções que nem você entende, escreve o nome do amado (ou da amada) acompanhado de um S2 com caneta Bic no braço (porque não tem grana ou idade pra fazer uma tatoo de verdade), além de assassinar a língua portuguesa com pérolas que não estou com saco para citar no momento.
É só sentir o peso da vida adulta que a carência toma proporções inimagináveis: um ser de 20, 30, 40, 50 anos ou mais volta a ter 15 anos, assinar seu nome com o sobrenome do seu ídolo (que no caso pode ser um vampiro, um jogador de futebol com um penteado mais caro que a minha escova de 60 reais ou uma "diva" que desmoraliza qualquer drag queen com suas vestes) e postar macaquices do tipo " partiu academia". Aí você vai, ama um sujeito ou uma sujeita, se desespera como uma cadela no cio e... Puf, quando o amor acaba, a vida volta a ser a mesma merda de antes.
Nenhum sentimento é desprezível ou evitável. Se sentimos dor, devemos saber porque a sentimos antes de cortá-la pela raiz - embora façamos o contrário na maioria das vezes. Se estamos tristes, devemos aprender com a merda que fizemos ou com a merda que o outro fez. Se estamos felizes, viva, lutemos para que este sentimento não se vá. Mas se amamos de verdade, se sentimos aquele amor que envolve todos os outros sentimentos citados e não citados, devemos preservá-lo. Pra que gritar pra coleguinha que o seu boy tem dona? Talvez porque você tenha vários outros, mas quer mostrar serviço mandando em todos. Pra que dizer pro mundo que você está triste, cansada, feliz, necessitada de um beijo ou que está vendo a filmografia da Jennifer Aninston enquanto chora loucamente atrás de um cara estilo Johhny Depp? Ninguém perguntou nada! - e por mais que isso aumente o seu grau de carência, é preciso encarar a verdade dos fatos.
Não vejo problemas em amar e ser amado, pelo contrário. E acho normal confundir as coisas, ora. O que acho vomitável é a necessidade de se expor, de abrir o coração para um monte de gente que não está nem aí. É pra isso que existem melhores amigas, diários e outras bizarrices.
Se há cura para a carência? Depende do momento, da pessoa, do nível de carência ou se você tá encucado por causa de alguém. Mas chega porque isso aqui não é pleinco nem revista Capricho.
Portanto, na próxima vez que pensar em gritar seu amor para o mundo, dê uma volta no corredor e pense bem se você o/a ama de verdade. E não precisa me dizer a resposta.
















(Ouça Papo Cabeça, Lulu Santos)

domingo, 21 de outubro de 2012

Primeira pessoa



Resolvi levar meus olhos para passear na calçada mais próxima, e a preguiça era tanta que escolhi o primeiro endereço que a web me ofereceu: este blog. De palavra em palavra, fui aquecendo a cabeça, a alma e a miopia. E percebi algo muito chato (que se repete nesse post): a mania de falar em primeira pessoa. Logo eu, que clamo tanto pelo “coletivo”, pelo sentimento universal, ou seja, por uma teoria ridícula de que preciso falar sobre todos, não sobre mim.
Mas queridos... Isso é impossível. É impossível falar de todos sem se colocar no meio, sem se exemplificar. É impossível citar sentimentos, pensamentos ou qualquer outra substância sem citar experiências próprias – mesmo que sejam fracas demais para serem consideradas “experiências”. Admiro muito o “socialismo” de um blog que escreve em terceira pessoa, sempre deixando suas próprias emoções de lado – mas como devo ter dito em algum lugar por aqui, esse papo socialista só é bonito no papel (e ainda assim é insuportável). Durante muito tempo, evitei falar de mim nesse portal, pois é chato demais falar de si mesmo o tempo todo. Mas percebi que evitar a chatice é atrai-la ainda mais.
Sou a primeira pessoa. Eu, Nathalie Gonçalves, chata, imprudente, que borra a maquiagem da Avon, que não suporta Indie, que não acredita em chiliques, que mesmo apaixonada pelo Hugh Grant não aguenta mais comédias românticas, que ouve Accid Jazz e acha que isso é estilo, que fala coisas tão bobas que chegam a ser indefiníveis, que quer desenhar uma mandala enorme dentro de uma roda composta por repetições da expressão “cosmic girl” nas costas, que é tão chata que para por aqui. Eu sou minha única referência – aos trancos e barrancos, eu faço a minha própria física. E de uma certa forma, quando falo de mim, falo de todos. Não que todos nós sejamos iguais... Cada um faz, fala, sente e pensa de um jeito, ora. O que quero dizer é quando falo de mim, quero que todos se sintam em segunda (e não me menos importante) pessoa ao me lerem ou me ouvirem, se houver uma voz automática em suas mentes que converta minhas palavras tão friamente digitadas em sons – ou vai que tem gente que bota tudo no Google Tradutor e fica ouvindo a voz linda daquela moça fazendo a locutora? 
Gosto de criar conexões. Gosto que minhas palavras inspirem as palavras de outras pessoas... Longe de mim fazer a linha auto ajuda, detesto dar conselhos e vender filosofias inconclusivas. O que quero é inspirar, é arrancar um sorriso que se reflita na tela do computador, é fecundar uma opinião em quem me lê – e se pra isso eu tiver que usar e abusar do pronome “eu”, ok, é um preço a se pagar.
Falar de mim é fácil... É só você sentar do meu lado e perguntar como eu sou, o que faço, o que penso, bla bla blá. Mas não sei dizer se ser eu é difícil – até porque não me lembro de ter sido outra pessoa, então não posso fazer uma comparação digna. Agora uma coisa eu posso garantir: falar em primeira pessoa, por mais colegial ou ridículo que pareça, é revigorante. Recomendo.
Perdoem-me se massacro vocês com tutoriais sobre ser alguém que ninguém é capaz de ser. Só quero inspirar vocês a criarem seus próprios tutoriais. Só quero ajuda-los numa descodificação que estou longe de alcançar, mas que, assim como vocês, tento obter. E saber que alguém me lê – seja aqui no Brasil, nos Estados Unidos, na Rússia ou na Alemanha, seja num escritório com o ar condicionado no máximo ou num quarto revirado – é muito bom.
E chega, porque já estou indo para a segunda página no Word – e não suporto massacrar vocês com palavras demais. 
(Tumblr)

(Ouça Song for a friend, Jason Mraz)

sábado, 20 de outubro de 2012

Sobre a novela, a meteorologia e a falta de assunto



Há tempo não escrevo aqui... Ok, pouco mais de dez dias, mas pra mim é muita coisa. Na verdade, não dei as caras por falta de assunto. Eu tento perceber as coisas no dia-a-dia, tento cheirar as manhãs, tento apreciar cada pequeno momento... Mas é difícil converter a rotina em palavras. É chato ser poético o tempo todo. É insuportável pensar que cada dia é um capítulo de um livro que só acabará quando pararmos num caixão.
Ultimamente, a preocupação com a falta de assunto foi algo que só aconteceu comigo, pelo visto. Porque todos têm o que conversar, têm com quem conversar – e Deus, sobre o que falam tanto? Sobre a novela que acabou de acabar? Sobre as loucuras da meteorologia? Sobre o país que vai receber a copa? Sobre um mendigo bonitão?
ATENÇÃO: SE JÁ ESTIVER ACHANDO ESSE POST CHATO DEMAIS, POR FAVOR, AUMENTE SUAS ESPERANÇAS. ESTOU SÓ COMEÇANDO, ESSE JOGO AINDA PODE VIRAR.
Gosto de fim de novela. Últimos capítulos me fazem viajar para um mundo onde tudo é perfeito, onde tudo dá certo no fim, oh, que mágico. E se for um final bacana, pode ter certeza que vou ficar feliz, e que por uma noite vou acreditar que terei um fim lindo e maravilhoso ao lado de um galã mais lindo e mais maravilhoso ainda – mas se for um final chato, pensarei na merda de final feliz que terei, e com certeza vou dormir furiosa. Sobre as loucuras da meteorologia? Ué, loucuras não devem ser discutidas, apenas por médicos – e qual o tipo de médico que vai discutir a bipolaridade do tempo e vai receita-lo um remédio? Sobre o país que vai receber a copa... Só de começar essa frase solto um bocejo gostoso. E sobre o mendigo bonitão? Ué, quantos mendigos lindos devem existir por aí, mas que por causa da carência ou de problemas com vícios, só enxergamos uma feiura cinza e causada por nós mesmos?
Ih, esgotei todas as minhas opções, mas a conversa ainda não acabou. Eu acho.
Quando não falamos nada, não quer dizer que estamos mortos, fechados, secos, ocos. Quer dizer que estamos pensando, que encontramos na nossa solidão uma espécie de abrigo que não encontraremos em mais ninguém. Tem gente que acumula amigos, palavras, emoções... E adora gritar para o mundo inteiro como é querido. Não acredito nisso. Não acredito em quem parece perfeito, em quem ama um coletivo, em quem se diz completo. Ninguém, repito, ninguém é completo. Sempre falta alguma coisa... Se não, cadê a graça? Nem último capítulo de novela é completo. Nem mesmo o tempo é completo. Nem uma “emoção” tão grande como a de uma copa do mundo é completa. Nem mesmo um ser provido de toda beleza do mundo – seja um ricaço ou um mendigo – é completo. Porque não faz o menor sentido ter tudo e todos, ser feliz como num comercial de margarina sem louça na pia e com suéter engomado. Uma vida completa não existe, desculpa.
Por isso, gosto tanto de ficar calada. Não preciso dizer nada, não preciso ter fulanos na minha cola e chama-los de irmãos, não preciso dizer que sou superior e que aprendo com a vida, não preciso usar filosofias alheias para mostrar como “sou feliz”. E não fico calada só por medo de falar besteira... Nem porque curto a ideia de economizar saliva. É porque gastar emoções forjadas é chato. É chato fingir, é chato mentir, é chato criar algo sem fundamento. E aí, quando você realmente é invadido por algo que mexe com seus sentidos, parece que está vivendo uma situação rotineira, igual às outras. E quando vai adjetiva-la, ou você usa expressões batidas ou fica sem palavras. Mas é tão mais fácil sorrir, ser alegre, esdrúxulo, fingir que o mundo é perfeito... E ser humano fica difícil. É difícil ter o direito de ter opinião quando você quiser. É difícil ser calado, desengonçado, errôneo, louco, bobo, “sem sal”. Porque não é popular, não faz sucesso, não é afável. Não fingir sentimentos é algo vazio demais para os outros.
E do que adianta agradar os outros? Ora... Os outros são os outros. E só. Obrigada pelas belas e verdadeiras palavras, Leoni.
Não sei qual será o próximo assunto a “bomba” por aí. Mas tenho certeza que vou comentar, vou parar meu mundo para tentar criar uma opinião a respeito do caso, vou viver encontrar palavras que descrevam essa situação. Por que? Porque mesmo amando um silêncio, sou viciada nessa brincadeira maluca de sorrir e fingir ser perfeita. Tão viciada que virei mendiga na calçada nesse mundo surreal criado por um tipo pirata de perfeição – só que não sou uma mendiga bonita, que pena.
Mas vem cá: você viu a novela ontem?