“Célula-alma” que abriga o núcleo, o monte de sensações que move a tal criatura, a indústria que não para. Como estátuas magras e rígidas, os cromossomos fazem seu duro trabalho de resgatar informações, de guardar prospectos e aspectos do passado e, veja bem, do presente – e por que não do futuro?. Como fitas coloridas em pleno carnaval, o ser se multiplica, se torna fruto de si mesmo – e antes que pensem que a loucura invadiu minha mente, vos digo que tal pensamento está atrasado demais. Pensemos: como um corpo pode começar tão jovem, tão neutro e tão simples que nenhuma “fórmula mágica” possa desvendar, e terminar pobre de força e cheio de inconveniências para o seu dono? Como podem as mudanças abusar tanto da ousadia que acabar por fazer de um corpo uma máquina exausta e rebelde? Ah, perguntas demais para uma tão vasta biologia. E a tal da “Alma” vai lá, administra seus trabalhos na tal máquina e faz dela seu brinquedo, seu próprio negócio, sua única e intensa vida. Mantem-se firme e forte para equilibrar o corpo, para que não caia do salto – algo como autoproteção, independência, saber se adaptar; como os músculos que tremem no frio para produzir calor, será que a tal da homeostasia funcionaria na resolução dos problemas mais voltados para a formosa soul sister? E a alma se reproduz, dá a luz, faz escolhas e muda, sempre muda, sempre sintetizando proteínas, “morfologando”, abusando do direito de resumir o que ela realmente é.
Voltemos à filial: o núcleo. Lá mora o gene, o segmento da “fitinha”. Tem cara de menino sossegado – mas só a cara, porque memória de verdade é sempre inquieta. Mas não é um segmento perfeito… Alguns intrometidos sempre deixam sua marca, sua forma de dizer: “eu estive aqui, e será que você me expulsa a tempo?”.
E lá vamos nós, dando a volta nessas tais origens do fundo do baú do corpo humano. Conhecendo as ervilhas rugosas, lisas, encaracoladas e escovadas de Mendel que insistem em mostrar a dura verdade de que sim, somos iguais aos nossos antepassados; o padrão de Sutton e Boveri, os “carinhas” que descobriram que temos um banco de dados bem organizado; o velho Johannsen, que “descodificou” a descoberta de Mendel e deu nome aos bois… Até chegarmos a Watson e Crick, os sábios que desenharam o tal banco de dados. Isso parece chato? Espere só até acharmos algum resquício de magia… Será que realmente existe magia na genética?
Podemos crer que existe vida nas nossas memórias. Podemos crer que existe vida no fato de termos memórias que nem são memórias nossas, mas de quem foi responsável – direta ou indiretamente – por estarmos vivos. Podemos crer que existe vida em fazer destas tais memórias o nosso presente e o futuro de quem geraremos, de quem sairá de nós. Podemos crer nas direções opostas da adenina, guanina, timina e citosina – e então veremos que não se trata de uma simples e física questão de atração entre opostos, mas de responsabilidade, a velha teoria de que “cada um faz sua parte”. Podemos crer que duas fitas-mãe são capazes de gerar uma fita filha, uma nova cor neste casamento do paralelismo com o antiparalelismo. Podemos crer na diferença entre as hélices e os espirais; sim, queridos, que não haja confusão entre quem vem de baixo e quem vem de cima. Podemos crer no desenvolvimento, no crescimento, na replicação… Deus, o que é isso mesmo? “Replicar, meu filho, aquilo que é o mesmo que duplicar, que precisa de um alicatezinho de nome estranho, um tal de helicase, aquele que separa as fitinhas, que tira a mãe de perto da filha… Mas no final, meu filho, tudo volta ao normal, novas cores serão geradas, novas informações…”.
Podemos crer que não acaba por aqui. E então creremos também que, por mais que a confusão more onde sentimos cheiro de obsessão por organização, existe vida em herdar um pouquinho de outras vidas. Vidas essas que mal ou que nem conhecemos, mas que sabiam que um dia nós nasceríamos e que por elas, de uma forma ou outra, responderíamos.
Não é por nada não, mas sempre existe magia em ser quem você é, em saber da onde você veio. Você veio da descodificação de alguém – quer algo mais mágico que isso?
#Descodifique-se.
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