domingo, 3 de abril de 2011

Significados básicos

Raiva. Mistura de qualquer coisa, acelerar, viver sobre o peso de qualquer porcaria que alguém te disse e você assinou embaixo – ou rasgou a folha. Arrependimento que não mata, mas sufoca até você tomar toda a dose oferecida num copo de requeijão. Arrepender-se do quê? De desmarcar algo que foi visto pelos teus olhos por uma outra perspectiva, e você nem imagina que olhou de forma burra e inconsequente há dois segundos ou mil anos.

Solidão. Vários sentidos, várias facetas e significados que pedem livros inteiros de páginas cheias de palavras vazias. Pode ser um fim de sábado sem sono e sem juízo num quarto vazio e sem som. Pode ser a falta que alguém faz, que alguma coisa faz, que os dois fazem. Pode ser o tempo que não passa – ou que passa descompensado, sem perguntar se está tudo bem. Vontade louca de sair berrando, de ter milhares de planos e milhões de neurônios perguntando para a alma o motivo de não haver luta para obter verdadeiras conquistas. Misto de medo, ânsia de desejo, perda de calma e paciência. Móveis bagunçados ou cabeça bagunçada? Os dois.

Política. Poder de comunicação, de mudança e de transformação. É a síndrome do “ão”: revolução, multidão, relação, confusão, traição, decisão, indecisão, agressão, salvação, perdição, integração, condição, codificação, dramatização, conspiração, sensação, fixação, discussão, razão e falta de razão, negação e no fim, afirmação. Devia mover os homens, mas por eles é movida e alterada de maneira irregular. Teve seus princípios roubados pelos que se acham superiores ao que olham no espelho alheio. Caminha em corda bamba, alcoolizada, enganada, como uma esposa traída e desiludida no mundo.

Liberdade. Usada em redações escolares, gasta nas canções que não são canções, que são mero fruto da ignorância ou do marketing. É companheira de quarto da política na clínica de reabilitação que frequentam: teve seu real valor roubado pelos que se acharam no direito de modifica-lo. Uns acham que é saber voar: mentira, pois ser pássaro, paraquedista ou piloto não livra ninguém das amarras que nós mesmos nos impomos. Uns acham que a liberdade está no descontrole do seu horário de chegar a casa depois de uma festa ou de alguma reunião íntima: lá vai outra mentira, pois consequências são fatores que desmentem a lenda do fim das já citadas amarras com a independência. Os mais estudados acreditam que o significado de liberdade está no caminho da felicidade, mas isso é algo pra mais de hora.

Amor. A principal arma dos músicos e escritores para vender histórias e canções. Tema aberto e aparentemente resolvido – está bem, vai viver o tal e você vai ver se entende o bicho. Codificado por natureza, chega às nossas mãos como um bebê jogado do céu pela cegonha. Chora de madrugada, sente dor, sente frio, faz pirraça, tem fome, urina e defeca nas suas roupas, mas faz de você gato e sapato quando solta um sorrisinho inocente e avermelhado. Está em todo lugar, mas cabe aos olhos e à alma senti-lo por inteiro. Faz-se de perdido, mas nem que mil anos passem ele lá estará, intacto, congelado, consciente de sua imortalidade. Esconde-se na improbabilidade do que ainda não foi vivido ou do que já passou. No fim das contas, o genérico do tal é só fogo de palha, fogueira de festa junina que termina com uma manhã fria e de puro silêncio. Mas o verdadeiro nunca perde o ar de sua verdade e de seu jeito tão fácil e esguio, de sua vocação tão insolente. Não possui garantias, mas tem uma grande qualidade: sua cicatrização é sua maior arma. Quebra, desmonta e destróis fronteiras, mas cria outras, testa, inova, refaz sentidos e monopoliza o que sobra do ser humano. É filho da razão, mas sabe como é, apegado com a mãe Emoção.

Estar vivo. Ser tudo isso. Ser mais que isso. Ser algo indecifrável, pois nunca se sabe o que é estar vivo na cabeça dos que estão vivos. É seguir caminhos próprios, é poder ser tudo que se quer ser. É estar nos topos e nos térreos, é não ter lugar definido. É dom, é talento, é presente divino que não se espera e só se agradece no fim. É arrepio, é intolerância – mas a tolerância chega na hora certa, sempre pronta para limpar o céu de quem está vivo. É sonhar e criar mundos perfeitos , e acordar sabendo que a perfeição dos olhos fechados foi mera ilusão. É sentir-se tocado pela natureza, pelos desejos mais ocultos e pelas entranhas mais fortes e profundas. É não saber nada no começo e não ter nenhuma certeza no fim. E quem foi que disse que a vida é feita de certezas.

Descodificar. Isso sim é coisa pra vida toda. É a vida: uma verdade, milhões de mentiras, algumas certezas e nenhuma garantia.

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Ibai Acevedo (Tumblr)

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