domingo, 3 de julho de 2011

Uma despedida

Hoje, despeço-me de tudo.

Despeço-me deste mundo vão e frio, caluniador, exagerado e soberbo. Despeço-me deste sentimento fraco e morto, sem sombra, sem carinho, sem noção de certo ou errado. Despeço-me desta cara sofrida, destas lágrimas viciosas, desta estranha mania de chorar por tudo que penso e de pensar em quem não daria um segundo para pensar em mim. Despeço-me deste teclar rápido que jogo nesta pobre máquina, que culpa nenhuma tem dos meus problemas.

Despeço-me dos meus olhares desviados, destas esquisitices, dos meus risos falsos e sem reais motivos. Despeço-me da mentira que carrego nos olhos sem querer, na verdade que escondo e que manipulo, e que vira mentira num piscar de segundos. Despeço-me dos relógios atrasados, das horas marcadas, porém desrespeitadas, deste sofrer extremo que guardo aqui dentro sem a menor necessidade.

Despeço-me desta pessoa insegura que sou, cheia de medos e procurando qualidades, ao invés de assumir certos defeitos. Despeço-me das horas que dediquei aos meus pontos fracos, dos instantes de vaidade que poderiam muito bem ser substituídos por instantes de caridade ou criatividade, ou seja, de qualquer rima de verdade. Despeço-me dos panos mortos que visto, das sequências de reflexos no espelho e da ânsia de boas maneiras que tenho.

Despeço-me das boas maneiras. As maneiras nunca são boas, isso a vida me ensinou quando tinha pouco mais de uma década de vida. Nós nunca seremos bons o bastante, por isso, despeço-me da imagem de perfeição que criei. Despeço-me dos carmas, das máscaras, das inconveniências. Despeço-me dos códigos. Descodificarei tudo, sou agora cria dos meus pensamentos, sejam eles insanos ou não. Que venham ousadias e novas ideias de liberdade, que rebeliões sejam bem-vindas. Despeço-me dos sonhos forjados.

Quando o sono estiver em falta, apelos serão feitos à música ou ao céu, mas nada de expectativas. Elas matam aos poucos. Elas matam muitos. Elas me mataram, e eu tive que nascer de novo, fazendo despedidas, apresentando-me a quem nunca imaginei conhecer. Portanto, despeço-me do medo de sair na rua e ser vista sem maquiagem ou com calças fora de moda. Se é assim que me veem, seja quem for o observador, observado por mim não será. Apenas o que os meus olhos veem será suficiente para abastecer minha alma. Posso colorir meus lábios, enfeitar meus cabelos ou embrulhar meu corpo num belo tecido, mas que fique claro que qualquer ato de cuidado com meu corpo ou aparência será para iluminar meus olhos quando num vidro transparente os tais se perderem.

Minha vida será assim: cada dia será novo. Se as lágrimas vierem, nunca serão contidas, mas também nunca serão mostradas ou citadas numa mesa de bar. Minhas lágrimas serão tão minhas que seu destino será traçado pela fonte da qual jorraram – se molharão o travesseiro ou se colaborarão para a falta de água no planeta. Meus sorrisos serão bem expressados, e sairão quando forem solicitados, sempre com uma senha: sinceridade. Se for de bom grado, se houver graça, se houver alegria, ora, venham e fiquem à vontade, a casa é de vocês. Mas se for algo falso, tão falso quanto notas de três ou baterias de corda, ora, guardados serão dentro da minha boca ou do meu coração.

Nada aqui dentro será desperdiçado, será tudo reaproveitado. Criarei meu conceito de sustentabilidade interna, de segunda chance, de recomeço. O espelho deixará de ser o pôster que minha parede consola. Não terei pôsteres na minha parede, apenas artes expressivas e fontes de cores – talvez fotos de cantores ou gente que me faça rir ou chorar, mas nada além disso, nada além do necessário, nada além do bem vindo. Portanto, despeço-me das idolatrias, dos amores impulsivos, das carências incontáveis e do sofrimento da meia-noite, quando quero uma mão pacífica na minha cintura dizendo que tudo vai melhorar. Não preciso de vozes alheias para que tudo melhore. A melhora está dentro de mim. Ou melhor, nada vai melhorar, simplesmente porque já vai estar bem.

Não preciso de mapas, caras, gestos, olhares, sombras, medos, angústias... O que ou quem me abasteceu um dia não morreu nem foi esquecido, simplesmente passou. Despeço-me deste horrível preconceito com o virar das páginas. Por mais essenciais que elas sejam, os novos capítulos devem existir. Meu novo capítulo estar por vir, eu já virei o que havia de ser virado, agora é tudo novo, de novo, de agora, de hoje em diante, como sempre deveria ter sido.

De hoje em diante, sou a dona do que há em mim. Tudo ao redor é só uma parte, uma amostra grátis. Despeço-me aqui deste meu velho jeito de ser. Minha alma renova-se agora, neste segundo, neste ponto final.

Bem-vinda.

 

#EuAmoEscrever ruth shively

(imagem: Ruth Shively)

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